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quarta-feira, 9 de junho de 2010

Catequese de Bento XVI - resumo da Viagem apostólica ao Chipre

Bollettino della Sala Stampa della Santa Sede

Queridos irmãos e irmãs!


Hoje desejo concentrar-me na viagem apostólica ao Chipre, que, em muitos aspectos, colocou-se em continuidade com aquelas anteriores na Terra Santa e Malta. Graças a Deus, esta visita pastoral correu muito bem, porque felizmente alcançou seus objetivos. Já por si mesma constitui-se como um acontecimento histórico; de fato, nunca antes o Bispo de Roma havia ido naquela terra abençoada pelo trabalho apostólico de São Paulo e São Barnabé, e tradicionalmente considerada parte da Terra Santa. Nos passos do Apóstolo dos gentios, tornei-me um peregrino do Evangelho, em primeiro lugar para fortalecer a fé das comunidades católicas, pequena mas vibrante minoria na Ilha, incentivando-as também a prosseguir o caminho rumo à plena unidade entre os cristãos, especialmente com os irmãos ortodoxos. Ao mesmo tempo, desejei idealmente abraçar todos os povos do Oriente Médio e abençoá-los em nome do Senhor, pedindo a Deus o dom da paz. Experimentei uma cordial acolhida, que me foi reservada em toda a parte, e gostaria de aproveitar esta oportunidade para expressar novamente a minha viva gratidão, em primeiro lugar, ao Arcebispo do Chipre dos maronitas, Dom Joseph Soueif, e Sua Beatitude Dom Fouad Twal, em conjunto com seus colaboradores, renovando a cada um o meu apreço pelo seu trabalho apostólico. Minha gratidão vai também para o Santo Sínodo da Igreja Ortodoxa do Chipre, em particular a Sua Beatitude Chrysostomos II, Arcebispo de Nova Justiniana e de todo o Chipre, que tive a alegria de abraçar com amor fraternal, assim como o Presidente da República, a todas as autoridades civis e a todos que de diversos modos esforçaram-se para o êxito desta minha visita Pastoral.


Ela iniciou no dia 4 de junho, na antiga cidade de Paphos, onde me senti envolto por uma atmosfera que parecia quase a síntese perceptível de dois mil anos de história cristã. Os vestígios arqueológicos ali encontrados são o sinal de uma antiga e gloriosa herança espiritual, que ainda hoje mantém um forte impacto na vida do país. Diante da igreja de Santa Ciriaca Chrysopolitissa, lugar de culto ortodoxo aberto também aos católicos e anglicanos localizado dentro do sítio arqueológico, desenvolveu-se uma tocante celebração ecumênica. Com o Arcebispo ortodoxo Chrysostomos II e representantes das comunidades armena, luterana e anglicana, fraternalmente renovamos o recíproco e irreversível compromisso ecumênico. Tais sentimentos manifestei sucessivamente a Sua Beatitude Chrysostomos II no cordial encontro em sua residência, durante o qual pude constatar o quanto a Igreja Ortodoxa do Chipre está ligada ao destino daquele povo, preservando devota e grata memória do Arcebispo Makarios III, comumente considerado pai e benfeitor da Nação, ao qual desejei também eu render homenagem permanecendo brevemente diante do monumento que o representa. Este enraizamento na tradição não impede à comunidade ortodoxa estar empenhada com decisão no diálogo ecumênico juntamente com a comunidade católica, ambas animadas pelo sincero desejo de reconstruir a plena e visível comunhão entre as Igrejas do Oriente e do Ocidente.


Em 5 de junho, em Nicósia, capital da Ilha, comecei a segunda etapa da viagem, visitando o presidente da República, que me acolheu com grande cortesia. Ao encontrar as autoridades civis e o Corpo diplomático, reiterei a importância de fundar a lei positiva sobre princípios éticos da lei natural, com o fim de promover a verdade moral na vida pública. Foi um apelo à razão, baseado sobre princípios éticos e carregado de implicações exigentes para a sociedade de hoje, que muitas vezes não reconhece mais as tradições culturais sobre as quais está fundada.


A Liturgia da Palavra, celebrada na escola primária de São Marun, representou um dos momentos mais sugestivos do encontro com a Comunidade católica do Chipre, nas suas componentes maronita e latina, e me permitiu conhecer de perto o fervor apostólico dos católicos cipriotas. Isso se expressa também através de atividades educativas e assistenciais com dezenas de estruturas, que são colocadas ao serviço da coletividade e são apreciados pelas autoridades governamentais, bem como por toda a população. Foi um momento de alegria e celebração, animado pelo entusiasmo de numerosos bebês, crianças e jovens. Não faltou o aspecto da memória, que tornou perceptível de modo comovente a alma da Igreja Maronita, a qual exatamente neste ano celebra os 1600 anos da morte do Fundador, São Marun. Neste contexto, foi particularmente significativa a presença de alguns católicos maronitas provenientes de quatro lugarejos da Ilha, onde os cristãos são pessoas que sofrem e esperam; a eles, desejo manifestar a minha paterna compreensão por suas aspirações e dificuldades.


Naquele mesma celebração pude admirar o compromisso apostólico da comunidade latina, guiada com solicitude pelo Patriarca latino de Jerusalém e zelo pastoral pelos Frades Menores da Terra Santa, que se colocam ao serviço das pessoas com perseverante generosidade. Os católicos de rito latino, muito ativos no âmbito caritativo, reservam uma atenção especial aos trabalhadores e aos mais necessitados. A todos, latinos e maronitas, assegurei a minha lembrança na oração, incentivando-os a testemunhar o Evangelho também mediante um paciente trabalho de confiança recíproca entre cristãos e não cristãos, para construir uma paz duradoura e uma harmonia entre os povos.


Desejei repetir o apelo à confiança e à esperança durante a Santa Missa celebrada na paróquia da Santa Cruz, na presença dos sacerdotes, pessoas consagradas, diáconos, catequistas e expoentes de associações e movimentos leigos da Ilha. Partindo de uma reflexão sobre o mistério da Cruz, fiz então um apelo urgente a todos os católicos do Oriente Médio a fim de que, apesar de grandes provações e as bem conhecidas dificuldades, não cedam ao desânimo e à tentação de emigrar, posto que sua presença na região constitui um insubstituível sinal de esperança. Garanti-lhes, especialmente aos sacerdotes e religiosos, a amorosa e intensa solidariedade de toda a Igreja, assim como a incessante oração a fim de que o Senhor lhes ajude a serem sempre presença alegre e pacificadora.


Definitivamente, o momento culminante da viagem apostólica foi a entrega do Instrumentum laboris da Assembleia Especial para o Oriente Médio do Sínodo dos Bispos. Tal ato aconteceu no domingo, 6 de junho, no Ginásio de Esportes de Nicósia, ao final da solene Celebração eucarística, da qual participaram os Patriarcas e Bispos das diversas comunidades eclesiais do Oriente Médio. Coral foi a participação do Povo de Deus, "entre cantos de alegria e louvor de uma multidão em festa", como diz o Salmo (42, 5). Disso fizemos uma experiência concreta, também graças à presença de muitos imigrantes, que constituem um grupo significativo da população católica da ilha, onde estão integrados sem dificuldade. Juntos, rezamos pela alma do falecido Bispo Dom Luigi Padovese, presidente da Conferência Episcopal da Turquia, cuja morte repentina e trágica nos deixou tristes e consternados.


O tema da Assembleia sinodal para o Oriente Médio, que se realizará em Roma no próximo mês de Outubro, fala de comunhão e de abertura à esperança: "A Igreja Católica no Oriente Médio: comunhão e testemunho." Este importante evento configura-se, de fato, como um encontro da cristandade católica daquela área, nos seus diversos ritos, mas ao mesmo tempo como uma busca renovada de diálogo e coragem para o futuro. Portanto, será acompanhado pelo afeto orante de toda a Igreja, em cujo coração o Oriente Médio ocupe um lugar especial, porque é exatamente ali que Deus se deu a conhecer aos nossos pais na fé. Não faltará, no entanto, a atenção de outros sujeitos da sociedade mundial, especialmente os protagonistas da vida pública, chamados a trabalhar com constante empenho a fim de que aquela região possa superar as situações de sofrimento e conflito que ainda a afligem e re-encontrar finalmente a paz na justiça.


Antes de despedir-me do Chipre, desejei visitar a Catedral Maronita de Nicósia - onde estava presente também o Cardeal Pierre Nasrallah Sfeir, Patriarca de Antioquia dos Maronitas. Renovei minha sincera proximidade e minha fervorosa compreensão a toda a comunidade da antiga Igreja maronita espalhada na Ilha, a cujas margens os maronitas se dirigiram em vários períodos e foram muitas vezes duramente provados por permanecerem fiéis à sua específica herança cristã, cujas memórias históricas e artísticas constituem um patrimônio cultural para toda a humanidade.


Queridos irmãos e irmãs, retornei ao Vaticano com a alma cheia de gratidão a Deus e com sentimentos de sincero afeto e estima pelos habitantes do Chipre, pelos quais me senti acolhido e compreendido. Na nobre terra cipriota, pude ver o trabalho apostólico das diversas tradições da única Igreja de Cristo e pude quase sentir tantos corações pulsarem em uníssono. Exatamente como afirmava o tema da viagem: "Um só coração, uma só alma". A Comunidade católica do Chipre, nas suas articulações maronita, armena e latina, esforça-se continuamente para ser um só coração e uma só alma, tanto internamente como nas relações cordiais e construtivas com os irmãos ortodoxos e com outras expressões cristãs. Possam o povo do Chipre e as outras nações do Oriente Médio, com seus líderes e representantes da diversas religiões, construir em conjunto um futuro de paz, amizade e fraterna colaboração. E rezemos a fim de que, através da intercessão de Maria Santíssima, o Espírito Santo torne fecunda esta viagem apostólica, e anime no mundo mundo todo a missão da Igreja, instituída por Cristo para anunciar a todos os povos o Evangelho da verdade, do amor e da paz.


quinta-feira, 6 de maio de 2010

Catequese sobre ministério sacerdotal (Munus sanctificandi)

Bollettino della Sala Stampa della Santa Sede

Queridos irmãos e irmãs,


no domingo passado, em minha Visita Pastoral a Turim, tive a alegria de permanecer em oração diante do Santo Sudário, unindo-me aos mais de dois milhões de peregrinos que, durante a solene Ostentação destes dias, o puderam contemplar. Aquele sagrado Tecido pode nutrir e alimentar a fé e reforçar a piedade cristã, porque nos impele a andar em direção ao Rosto de Cristo, ao Corpo de Cristo crucificado e ressuscitado, a contemplar o Mistério Pascal, centro da Mensagem cristã. Do Corpo de Cristo Ressuscitado, vivo e operante na história (cf. Rm 12, 5), nós, queridos irmãos e irmãs, somos membros vivos, cada um segundo a sua função, com a missão que o Senhor desejou nos confiar. Hoje, nesta Catequese, desejo retornar aos três ofícios específicos dos sacerdotes, que, segundo a tradição, são essencialmente três: ensinar, santificar e governar. Em uma das Catequeses precedentes, falei sobre a primeira dessas três missões: o ensino, o anúncio da verdade, o anúncio do Deus revelado em Cristo, ou - em outras palavras - a missão profética de colocar o homem em contato com a verdade, de ajudá-lo a conhecer o essencial de sua vida, da própria realidade.


Hoje desejo ater-me brevemente convosco no segundo ofício que o sacerdote possui, aquele de santificar os homens, especialmente através dos Sacramentos e do culto da Igreja. Aqui devemos, antes de tudo, perguntar-nos: O que significa dizer a palavra "Santo"? A resposta é: "Santo" é a qualidade específica do ser de Deus, isto é, a verdade absoluta, bondade, amor, beleza - luz pura. Santificar uma pessoa significa, então, colocá-la em contato com Deus, com esse seu ser luz, verdade, amor puro. É óbvio que tal contato transforma a pessoa. Nos tempos antigos, havia essa forte convicção: Ninguém pode ver Deus sem morrer subitamente. Tão grande é a força da verdade e da luz! Se o homem toca esse poder absoluto, não sobrevive. Por outro lado, havia também a convicção: sem um mínimo de contato com Deus, o homem não pode viver. Verdade, bondade e amor são condições fundamentais do seu ser. A questão é: Como pode encontrar o homem aquele contato com Deus, que é vital, sem morrer esmagado pela grandeza do ser divino? A fé da Igreja nos diz que Deus mesmo criou este contato, que nos transforma gradualmente em verdadeiras imagens de Deus.


Assim chegamos novamente no ofício do sacerdote de "santificar". Nenhum homem, por si mesmo, a partir de sua própria força, pode colocar o outro em contato com Deus. Parte essencial da graça do sacerdócio é o dom, o ofício de criar tal contato. Isso realiza-se através do anúncio da Palavra de Deus, na qual a sua luz vem ao nosso encontro. Realiza-se de modo particularmente denso nos sacramentos. A imersão no mistério pascal de morte e ressurreição de Cristo acontece no Batismo, é reforçada na Confirmação e na Reconciliação, é alimentada pela Eucaristia, Sacramento que edifica a Igreja como Povo de Deus, Corpo de Cristo, Templo do Espírito Santo (cf. JOÃO PAULO II, Exortação Apostólica Pastores Gregis, n. 32). É, então, o próprio Cristo que nos torna santos, isto é, que nos atrai na esfera de Deus. Mas como ato de Sua infinita misericórdia, chama alguns a "estar" com ele (cf. Mc 3, 14) e tornarem-se, mediante o Sacramento da Ordem, apesar da pobreza humana, participantes do seu próprio Sacerdócio, ministros desta santificação, dispensadores de seus mistérios, "pontes" de encontro com Ele, da sua mediação entre Deus e os homens e entre os homens e Deus (cf. Presbyterorum Ordinis, 5).


Nas últimas décadas, foram lançadas tendências orientadas a fazer prevalecer, na identidade e na missão do sacerdote, a dimensão do anúncio, separando-a daquela da santificação; frequentemente afirmou-se que seria necessário superar uma pastoral meramente sacramental. Mas é possível exercitar autenticamente o Ministério sacerdotal "superando" a pastoral sacramental? O que significa exatamente para os sacerdotes evangelizar, em que consiste o chamado primeiro do anúncio? Conforme relatam os Evangelhos, Jesus afirma que o anúncio do Reino de Deus é o objetivo de sua missão; esse anúncio, no entanto, não é apenas um "discurso", mas inclui, ao mesmo tempo, o seu próprio agir; os sinais, milagres que Jesus realiza indicam que o Reino surge como realidade presente e que coincide, ao final, com a sua própria pessoa, com o dom de si mesmo, como ouvimos hoje na leitura do Evangelho. E o mesmo vale para o ministro ordenado: ele, o sacerdote, representa Cristo, o Enviado do Pai, continua a sua missão, mediante a "palavra" e o "sacramento", nesta totalidade de corpo e alma, de sinal e palavra. Santo Agostinho, em uma carta ao Bispo Onorato di Thiabe, referindo-se aos sacerdotes, afirma: "Façamos, então, os servos de Cristo, ministros da Palavra e do Sacramento d'Ele, o que ele ordenou ou permitiu" (Epist. 228, 2). É necessário refletir se, em alguns casos, o ter subestimado o verdadeiro exercício do munus sanctificandi não tenha, talvez, representado um enfraquecimento da própria fé na eficácia salvífica dos Sacramentos e, em definitivo, no operar atual de Cristo e do Seu Espírito, através da Igreja, no mundo.


Quem, então, salva o mundo e o homem? A única resposta que podemos dar é: Jesus de Nazaré, Senhor e Cristo, crucificado e ressuscitado. E onde se atualiza o Mistério da morte e ressurreição de Cristo, que traz a salvação? Na ação de Cristo através da Igreja, em particular no Sacramento da Eucaristia, que torna presente a oferta sacrifical redentora do Filho de Deus, no Sacramento da Reconciliação, em que da morte do pecado se vai à vida nova, e em todo o ato sacramental de santificação (cf. Presbyterorum Ordinis, 5). É importante, então, promover uma catequese adequada para ajudar os fiéis a compreender o valor dos Sacramentos, mas também é necessário, seguindo o exemplo do Santo Cura d'Ars, ser disponíveis, generosos e atentos no doar aos irmãos os tesouros da graça que Deus colocou em nossas mãos, e dos quais não somos os "mestres", mas tutores e administradores. Sobretudo neste nosso tempo, em que, de um lado, parece que a fé vai enfraquecendo-se e, por outro, emerge uma profunda necessidade e uma ampla busca de espiritualidade, é necessário que todo o sacerdote recorde que, na sua missão, o anúncio missionário e o culto e adoração e os sacramentos não estão mais separados e promova uma saudável pastoral sacramental, para formar o Povo de Deus e ajudá-lo a viver plenamente a Liturgia, o culto da Igreja, os Sacramentos como dons gratuitos de Deus, atos livres e eficazes de sua ação salvadora.


Como recordei na Santa Missa Crismal deste ano: "O centro do culto da Igreja é o Sacramento. Sacramento significa que o primeiro a intervir não somos nós, os homens, mas Deus, que primeiro vem ao nosso encontro com o seu agir, olha-nos e nos conduz até junto de Si. [...] Deus nos toca por meio de realidades materiais [...] que Ele assume ao seu serviço, fazendo deles instrumentos do encontro entre nós e Ele mesmo" (Santa Missa Crismal, 1º de abril de 2010). A verdade segundo a qual no sacramento "não somos nós homens a fazer qualquer coisa" diz respeito, e deve dizer respeito, também à consciência sacerdotal: cada sacerdote sabe bem que é um instrumento necessário para o agir salvífico de Deus, mas ainda assim sempre instrumento. Tal consciência deve torná-los humildes e generosos na administração dos Sacramentos, no respeito às normas canônicas, mas também na profunda convicção de que sua missão é garantir que todos os homens, unidos a Cristo, possam oferecer-se a Deus como hóstia viva e santa apreciada por Ele (cf. Rm 12,1). Exemplar, acerca do primado do munus sanctificandi e da correta interpretação da pastoral sacramental, é ainda São João Maria Vianney, que, um dia, frente a um homem que dizia não ter fé e desejava discutir com ele, respondeu: "Oh! meu amigo, vos dirigistes muito mal, eu não consigo pensar ... mas se tendes necessidade de alguma consolação, dirija-se para lá ... (seu dedo apontava para o inexorável banco [do confessionário]) e, acredita-me, em que muitos outros colocaram-se antes de vós, e não tiveram do que se arrepender" (cf. Monnin A., Il Curato d’Ars. Vita di Gian-Battista-Maria Vianney, vol. I, Torino 1870, pp. 163-164).


Queridos sacerdotes, vivei com alegria e amor a Liturgia e o culto: é ação que o ressuscitado realiza no poder do Espírito Santo em nós, com nós e por nós. Desejo renovar o apelo feito recentemente para "retornar para o confessionário, como lugar no qual celebrar o Sacramento da Reconciliação, mas também como lugar em que 'habitar' com mais frequência, para que o fiel possa encontrar misericórdia, conselho e conforto, sentir-se amado e compreendido por Deus e experimentar a presença da Misericórdia Divina, ao lado da Presença real na Eucaristia" (Discurso à Penitenciaria Apostólica, 11 de março de 2010). E desejo também convidar todo o sacerdote para celebrar e viver com intensidade a Eucaristia, que está no coração do ofício de santificar; é Jesus que deseja estar conosco, viver em nós, doar-se a si mesmo, mostrar-nos a infinita misericórdia e ternura de Deus; é o único Sacrifício de amor de Cristo que se faz presente, se realiza entre nós e leva rumo ao trono da Graça, à presença de Deus, abraça a humanidade e nos une a Ele (cf. Discurso ao Clero de Roma, 18 de fevereiro de 2010). E o sacerdote é chamado a ser ministro desse grande mistério, no Sacramento e na vida. Se "a grande tradição eclesial justamente desvinculou a eficácia sacramental da situação existencial concreta de cada sacerdote, e assim as expectativas legítimas dos fiéis são adequadamente salvaguardadas", isso nada tira da "necessária, aliás indispensável, tensão para a perfeição moral, que deve habitar cada coração autenticamente sacerdotal": isso é também um exemplo de fé e de testemunho de santidade, que o Povo de Deus espera justamente de seus pastores (cf. Discurso à Assembleia Plenária da Congregação para o Clero, 16 de março de 2009). E é na celebração dos Santos Mistérios que o sacerdote encontra a raiz de sua santificação (cf. Presbyterorum Ordinis, 12-13).


Queridos amigos, sede cientes do grande dom que os sacerdotes são para a Igreja e para o mundo; através do seu ministério, o Senhor continua a salvar os homens, a tornar-se presente, a santificar. Sabei agradecer a Deus, e sobretudo sede próximos de vossos sacerdotes com a oração e com o apoio, especialmente na dificuldade, a fim de que sejam sempre mais Pastores segundo o coração de Deus. Obrigado!


quarta-feira, 5 de maio de 2010

Papa afirma que sacerdotes têm a missão de santificar

Rádio Vaticano


Bento XVI saúda os peregrinos durante a Catequese
O céu cinzento não desencorajou fiéis e peregrinos a participarem da Catequese na Praça de São Pedro, no Vaticano, na manhã desta quarta-feira, 5.

Bento XVI falou sobre a missão de santificar, característica dos sacerdotes. Santificar uma pessoa significa colocá-la em contato com Deus, com o ser de Deus que é verdade absoluta, bondade, amor e beleza.

Esse contato não pode acontecer somente como fruto do esforço do homem, mas é o próprio Deus quem o realiza. Parte essencial da graça do sacerdócio é o dom e a missão de criar tal contato, que se realiza no anúncio da palavra de Deus e, de um modo particularmente denso, nos sacramentos.

A salvação é recebida somente de Deus, que atrai o homem para si e opera nele por meio de realidades materiais que Ele mesmo escolheu. Por isso, afirmou o Papa, é preciso que os sacerdotes se dediquem com generosidade à administração dos sacramentos, a dar a seus irmãos o tesouro da graça que Deus colocou em suas mãos, não como proprietários, mas como servidores. E, junto a isso, ajudar os fiéis a viverem plenamente a liturgia, o culto e os sacramentos como dom divino gratuito e eficaz para a salvação.

O Pontífice fez uma saudação especial aos portugueses, em vista de sua viagem a Portugal na próxima semana:

.: OUÇA a saudação do Papa (em português)

"Queridos irmãos e irmãs, os sacerdotes são um grande dom para a Igreja e para o mundo; através do seu ministério, o Senhor continua a salvar os homens, a tornar-se presente e a santificar. Como o Santo Cura d’Ars, sejam generosos na distribuição dos tesouros da graça que Deus colocou em nossas mãos. Uma saudação cordial aos grupos do Brasil, designadamente aos fiéis do Santuário Nossa Senhora da Piedade, em Botucatu, e demais peregrinos de língua portuguesa. Com a Virgem Maria, neste mês que Lhe é especialmente dedicado, imploremos o Espírito de Amor sobre todos os sacerdotes, para que sejam pastores segundo o coração de Deus. Sobre vós, vossas famílias e paróquias, desça a minha Bênção. Aproveito este momento para enviar uma saudação particular ao querido povo de Portugal, país com uma história muito ligada ao Papa, Bispo de Roma. Para lá, partirei na próxima terça-feira, aceitando o convite que me foi feito pelo Senhor Presidente da República e pela Conferência Episcopal Portuguesa. Sinto-me muito feliz por poder visitar as 'Terras de Santa Maria', no décimo aniversário da beatificação dos Pastorinhos de Fátima, Francisco e Jacinta Marto. A todos, sem excluir ninguém, saúdo cordialmente. Até breve, em Lisboa, Fátima e Porto!".

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Catequese de Bento XVI sobre o ministério sacerdotal - 14/04/2010

Bollettino della Sala Stampa della Santa Sede

Queridos amigos,

neste período pascal, que nos conduz a Pentecostes e também nos aproxima das celebrações de encerramento do Ano Sacerdotal, programadas para 9, 10 e 11 de junho próximos, me é caro dedicar agora algumas reflexões sobre o tema do Ministério ordenado, focalizando-me na realidade fecunda da configuração do sacerdote a Cristo Cabeça, no exercício dos tria munera que recebeu, isto é, dos três ofícios de ensinar, santificar e governar.

Para entender o que significa agir in persona Christi Capitis - na pessoa de Cristo Cabeça - por parte do sacerdote, e para entender também quais consequências derivam do dever de representar o Senhor, especialmente no exercício dessas três tarefas, é necessário esclarecer, antes de tudo, o que se entende por "representação". O sacerdote representa Cristo. O que significa dizer isso? O que significa "representar" alguém? Na linguagem comum, significa dizer - geralmente - receber a delegação de uma pessoa para estar presente em seu lugar, falar e agir em seu lugar, porque aquele que é representado está ausente da ação concreta. Nos perguntamos: o sacerdote representa o Senhor do mesmo modo? A resposta é não, porque, na Igreja, Cristo nunca está ausente, a Igreja é o seu corpo vivo e a Cabeça da Igreja é ele, presente e operante nela. Cristo nunca está ausente; na verdade, Cristo está presente de um modo totalmente livre das limitações de espaço e tempo, graças ao evento da Ressurreição, que contemplamos de modo especial neste tempo de Páscoa.

Portanto, o sacerdote que age in persona Christi, em representação do Senhor, nunca age em nome de um ausente, mas na Pessoa mesma de Cristo Ressuscitado, que se faz presente com sua ação realmente eficaz. Age realmente e realiza aquilo que o sacerdote não poderia fazer: a consagração do vinho e do pão, que são realmente a presença do Senhor, a absolvição dos pecados. O Senhor torna presente a sua própria ação na pessoa que realiza tais gestos.

Estas três funções do padre - que a Tradição identificou nas diversas palavras de missão do Senhor; ensinar, santificar e governar - na sua distinção e na profunda unidade são uma especificação desta representação eficaz. Essas são, na realidade, as três ações do próprio Cristo ressuscitado, que, hoje, na Igreja, no mundo, ensina e, assim, cria a fé, reúne o seu povo, cria a presença da verdade e constrói realmente a comunhão da Igreja universal, e santifica e guia.


A primeira tarefa da qual desejo falar hoje é o munus docendi, ou seja, aquele de ensinar. Hoje, em plena emergência educativa, o munus docendi da Igreja, exercido concretamente através do ministério de cada sacerdote, torna-se particularmente importante. Vivemos em uma grande confusão acerca das opções fundamentais da nossa vida, sobre o que é o mundo, de onde viemos, para onde vamos, o que devemos fazer para agir bem, como devemos viver, quais são os valores realmente pertinentes. Em relação a tudo isso existem tantas filosofias contrastantes, que nascem e se espalham, criando uma confusão acerca da decisão fundamental, como viver, porque não sabemos mais, geralmente, de quê e por quê somos feitos e onde andamos.

Nesta situação, realmente, realiza-se de novo a Palavra do Senhor: "Tenho compaixão do povo, são como ovelhas sem pastor". O Senhor havia dito isso quando viu milhares de pessoas que o seguiam no deserto, porque, em meio à diversidade das correntes daquele tempo, não sabiam mais qual era o real significado das Escrituras. O Senhor, movido de compaixão, interpretou a Palavra de Deus - Ele próprio é a Palavra de Deus - e deu a orientação. E essa é a função in persona Christi do sacerdote, aquela de tornar presente, em meio à confusão, à desorientação de nosso tempo, a luz da Palavra de Deus, a Luz que é o próprio Cristo neste nosso mundo. Então, o sacerdote não ensina as suas próprias ideias. O sacerdote não fala "de si", não fala "para si", para criar para si, talvez, admiradores ou um partido próprio. Não fala de coisas próprias. O sacerdote ensina em nome de Cristo presente, propõe a Verdade que é o próprio Cristo, a Sua Palavra, o Seu modo de viver, e de andar adiante.

Para o sacerdote, vale tudo quanto Cristo disse de si mesmo: "A minha doutrina não é minha" (Jo, 7, 16); Cristo, isto é, não propõe a si mesmo, mas, enquanto Filho, é a voz, a palavra do Pai. Também o sacerdote deve sempre dizer e agir assim: "a minha doutrina não é minha, não propago as minhas ideias ou o que me apraz, mas sou boca e coração de Cristo e torno presente esta única e comum doutrina, que criou a Igreja universal e que cria a vida eterna". Esse fato, de que o sacerdote não inventa, não cria e não proclama as próprias ideias, que a doutrina que anuncia não é sua, mas de Cristo, não significa, por outro lado, que ele seja neutro, quase como um porta-voz que lê um texto de que, talvez, não se apropria. Também neste caso vale o modelo de Cristo, que disse: Eu não sou de mim mesmo e não vivo por mim, mas venho do Pai e vivo pelo Pai. Por isso, nesta profunda identificação, a doutrina de Cristo é aquela do Pai e ele próprio é um com o Pai. O sacerdote que anuncia a palavra de Cristo, a fé da Igreja e não as próprias ideias, deve também dizer: Eu não vivo de mim e por mim, mas vivo com Cristo e de Cristo e, por isso, o que Cristo nos disse se torna minha palavra, também se não é minha. A vida do sacerdote deve identificar-se com Cristo e, desse modo, a palavra não própria se torna, todavia, uma palavra profundamente pessoal. Santo Agostinho, sobre este tema, disse: "Nós, sacerdotes, que somos? Ministros (de Cristo), seus servidores; porque tudo o que distribuímos a vós não é coisa nossa, mas o colocamos para fora de sua dispensa. E também nós vivemos disso, porque somos servos como vós" (Sermão 229/ E, 4).

O ensinamento que o sacerdote é chamado a oferecer, a verdade da fé, deve ser interiorizada e vivida em um intenso caminho espiritual pessoal, de modo que o sacerdote realmente entre em uma profunda, interior comunhão com o próprio Cristo. O sacerdote crê, acolhe e procura viver, antes de tudo como próprio, tudo o que o Senhor ensinou e a Igreja transmitiu, naquele percurso de empatia com o próprio ministério, de que São João Maria Vianney é testemunho exemplar (cf. Carta de proclamação do Ano Sacerdotal). "Unidos na mesma caridade - afirma novamente Santo Agostinho - somos todos auditores daquele que é para nós, no céu, o único Mestre" (Enarr. in Ps. 131, 1, 7).

Aquela do sacerdote, por consequência, não raro, poderia parecer com a "voz que clama no deserto" (Mc 1, 3), mas exatamente nisso consiste a sua força profética: no não ser mais aprovado, nem aprovável, por qualquer cultura ou mentalidade dominante, mas no mostrar a única novidade capaz de operar uma autêntica e profunda renovação do homem, isto é, que Cristo é o Vivente, é o Deus próximo, o Deus que opera na vida e pela vida do mundo e nos doa a Verdade, o modo de viver.

Na preparação atenta da pregação festiva, sem excluir aquela ferial, no esforço de formação catequética, nas escolas, nas instituições acadêmicas e, de modo especial, através daquele livro não escrito que é a sua própria vida, o sacerdote é sempre "professor", ensina. Mas não com a presunção de quem impõe a própria verdade, mas, sim, com a humilde e alegre certeza de quem encontrou a Verdade, à qual está agarrado e pela qual foi transformado, e, por isso, não pode deixar de anunciá-la. O sacerdócio, de fato, ninguém o pode escolher para si, não é um modo de alcançar uma segurança na vida, de obter uma posição social: ninguém pode dar-se-lo, nem buscá-lo para si. O sacerdócio é a resposta ao chamado do Senhor, à sua vontade, para se tornar anuciador não de uma verdade pessoal, mas da sua verdade.

Queridos irmãos sacerdotes, o Povo cristão pede para ouvir de nossos ensinamentos a genuína doutrina eclesial, através da qual se pode renovar o encontro com Cristo, que doa alegria, paz, salvação. A Sagrada Escritura, os escritos dos Padres e Doutores da Igreja, o Catecismo da Igreja Católica constituem, neste contexto, os pontos de referência essenciais no exercício do munus docendi, também essencial para a conversão, o caminho de fé e salvação dos homens. "Ordenação Sacerdotal significa: ser imersos [...] na Verdade" (Homilia para a Missa Crismal, 9 de abril de 2009), aquela Verdade que não é simplesmente um conceito ou um conjunto de ideias a se transmitir e assimilar, mas que é a Pessoa de Cristo, com a qual, para a qual e na qual viver. E assim, necessariamente, nasce também a atualidade e a compreensão do anúncio. Somente essa consciência de uma Verdade feita Pessoa na Encarnação do Filho justifica o mandato missionário: "Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda a criatura" (Mc 16, 15). Somente se a Verdade é destinada a toda a criatura ela não é uma imposição de qualquer coisa, mas a abertura do coração àquilo para o qual foi criado.

Queridos irmãos e irmãs, o Senhor confiou aos sacerdotes uma grande tarefa: serem anuciadores da Sua Palavra, da Verdade que salva; serem sua voz no mundo para trazer o que é útil para o verdadeiro bem das almas e o autêntico caminho de fé (cf. 1 Cor 6, 12). São João Maria Vianney sirva de exemplo para todos os sacerdotes. Ele era homem de grande sabedoria e força heroica no resistir às pressões culturais e sociais do seu tempo para poder conduzir as almas a Deus: simplicidade, fidelidade e objetividade eram as características essenciais da sua pregação, transparência de sua fé e de sua santidade. O Povo cristão dali era edificado e, como acontece com os verdadeiros mestres de todos os tempos, ali reconhecia a luz da Verdade. Ali reconhecia, em definitivo, aquilo que se deveria sempre reconhecer em um sacerdote: a voz do Bom Pastor.

Bento XVI diz que padre deve falar de Cristo, não de si mesmo

Papa Bento XVI saúda os peregrinos durante a Catequese na Praça de São Pedro, no Vaticano
"O sacerdote não ensina as suas próprias ideias. O sacerdote não fala 'de si', não fala 'para si' [...]. O sacerdote ensina em nome de Cristo presente, propõe a Verdade que é o próprio Cristo, a Sua Palavra, o Seu modo de viver, e de seguir adiante".

A Catequese de Bento XVI na Audiência Geral desta quarta-feira, 14, centrou-se no tema do ministério sacerdotal, mais particularmente no ofício de ensinar, comum a todos os padres.
.: OUÇA a Catequese do Papa (em italiano)

"Vivemos em uma grande confusão acerca das opções fundamentais da nossa vida, sobre o que é o mundo, de onde viemos, para onde vamos, o que devemos fazer para agir bem, como devemos viver, quais são os valores realmente pertinentes. [...] Essa é a função in persona Christi do sacerdote, aquela de tornar presente, em meio à confusão, à desorientação de nosso tempo, a luz da Palavra de Deus, a Luz que é o próprio Cristo neste nosso mundo", explica o Papa.

A força profética do sacerdócio consiste em "não ser mais aprovado, nem aprovável, por qualquer cultura ou mentalidade dominante, mas no mostrar a única novidade capaz de operar uma autêntica e profunda renovação do homem, isto é, que Cristo é o Vivente, é o Deus próximo, o Deus que opera na vida e pela vida do mundo e nos doa a Verdade, o modo de viver".

O ensinamento do sacerdote não deve ser exercido com a presunção de quem ensina a própria verdade, "mas, sim, com a humilde e alegre certeza de quem encontrou a Verdade, à qual está agarrado e pela qual foi transformado, e, por isso, não pode deixar de anunciá-la", sublinhou o Papa.


Doutrina da Igreja

Nesse sentido, o sacerdócio não é algo que a pessoa pode escolher para si mesma, ou um modo de garantir segurança na vida ou posições sociais. "O sacerdócio é a resposta ao chamado do Senhor, à sua vontade, para se tornar anuciador não de uma verdade pessoal, mas da sua verdade".

Bento XVI também ressaltou que os cristãos esperam do ensinamento do sacerdote a genuína doutrina da Igreja. "A Sagrada Escritura, os escritos dos Padres e Doutores da Igreja, o Catecismo da Igreja Católica constituem, neste contexto, os pontos de referência essenciais no exercício do munus docendi, também essencial para a conversão, o caminho de fé e salvação dos homens".


Identificação e representação

O Santo Padre destaca que o anunciar uma doutrina que não é sua, particular, não significa que o sacerdote seja neutro, ou um mero porta-voz de um texto do qual não se apropria.

"A vida do sacerdote deve identificar-se com Cristo e, desse modo, a palavra não própria se torna, todavia, uma palavra profundamente pessoal", disse, agregando que o padre deve procurar assimilar como próprio tudo o que o Senhor ensinou e a Igreja transmitiu.

Os ministros ordenados agem in persona Christi Capitis - na pessoa de Cristo Cabeça -, representam o Senhor. O Pontífice pergunta: "O que significa dizer isso? O que significa 'representar' alguém?"

Bento XVI explica que, na linguagem comum, representar implica ocupar o lugar de alguém ausente. "O sacerdote representa o Senhor do mesmo modo? A resposta é: não, porque, na Igreja, Cristo nunca está ausente. Na verdade, Cristo está presente de um modo totalmente livre das limitações de espaço e tempo, graças ao evento da Ressurreição, que contemplamos de modo especial neste tempo de Páscoa".

Assim, destaca que é a Pessoa de Cristo Ressuscitado que torna presente a sua própria ação através do sacerdote.

O Papa concluiu sua reflexão propondo o exemplo de São João Maria Vianney aos sacerdotes. "Ele era homem de grande sabedoria e força heroica no resistir às pressões culturais e sociais do seu tempo para poder conduzir as almas a Deus", afirmou.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Catequese de Bento XVI na Quarta-feira da Oitava da Páscoa 2010

Bollettino della Sala Stampa della Santa Sede
Queridos irmãos e irmãs!

A tradicional Audiência Geral da quarta-feira é, hoje, inundada pela alegria luminosa da Páscoa. Nestes dias, de fato, a Igreja celebra o mistério da Ressurreição e experimenta a grande alegria que surge da boa notícia do triunfo de Cristo sobre o mal e a morte. Uma alegria que se prolonga não somente durante a Oitava da Páscoa, mas se estende por cinquenta dias até Pentecostes. Após as lágrimas e o desânimo da Sexta-feira Santa, e após o silêncio cheio de expectativa do Sábado Santo, eis o anúncio maravilhoso: "Verdadeiramente o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão!" (Lc 24, 34). Essa, em toda a história do mundo, é a "boa notícia" por excelência, é o "Evangelho" anunciado e transmitido através dos séculos, de geração em geração. A Páscoa de Cristo é o ato supremo e insuperável do poder de Deus. É um evento absolutamente extraordinário, o fruto mais bonito e maduro do "mistério de Deus". É tão extraordinário a ponto de se tornar inenarrável naquelas dimensões que escapam à nossa capacidade humana de conhecimento e investigação. E, no entanto, esse é também um fato "histórico", real, testemunhado e documentado. É o acontecimento que funda toda a nossa fé. É o conteúdo central no qual cremos e o motivo principal por que acreditamos.

O Novo Testamento não descreve a Ressurreição de Jesus enquanto processo. Refere-se sobretudo aos testemunhos daqueles que encontraram Jesus em pessoa após sua ressurreição. Os três Evangelhos sinóticos nos relatam que aquele anúncio - "Ressuscitou!" - foi proclamado inicialmente por alguns anjos. É, portanto, um anúncio que tem origem em Deus; mas Deus o confia imediatamente aos seus "mensageiros" para que o transmitam a todos. Assim, são esses próprios anjos que convidam as mulheres, que se dirigiram ao sepulcro de manhã cedo, a ir rapidamente dizer aos discípulos: "Ele ressuscitou dentre os mortos, e eis que vos precede na Galiléia; lá o verão" (Mt 28, 7). Desse modo, mediante as mulheres do Evangelho, aquele mandato divino atinge todos e cada um para que, por sua vez, transmitam a outros, com fidelidade e coragem, essa mesma notícia: uma boa notícia, prazerosa e portadora de alegria.

Sim, queridos amigos, toda a nossa fé se baseia sobre a transmissão constante e fiel desta "boa notícia". E nós, hoje, desejamos expressar a Deus nossa profunda gratidão pela incontável legião de crentes em Cristo que nos precederam através dos séculos, porque não menosprezaram o chamado fundamental de anunciar o Evangelho que haviam recebido. A boa notícia da Páscoa, portanto, requer o trabalho de testemunhas entusiastas e corajosas. Todo o discípulo de Cristo, também cada um de nós, é chamado a ser testemunha. É esse o preciso, desafiador e emocionante mandato do Senhor Ressuscitado. A "notícia" da vida nova em Cristo deve resplandecer na vida do cristão, deve ser viva e ativa - no que a toca, realmente capaz de mudar o coração, a existência toda. Ela é viva, antes de tudo, porque Cristo mesmo é sua alma vivente e que lhe dá vida. Nos recorda São Marcos ao final de seu Evangelho, onde escreve que os Apóstolos "partiram e pregaram por toda parte, enquanto o Senhor agia junto com eles, confirmando a Palavra com os sinais que a acompanhavam" (Mc 16, 20).

Os acontecimentos na vida dos Apóstolos são também os nossos e aqueles de todo o crente, de todo o discípulo que se torna "anunciador". Também nós, de fato, estamos confiantes de que o Senhor, hoje como ontem, trabalha em conjunto com suas testemunhas. Esse é um fato que podemos reconhecer cada vez que vemos brotar as sementes de uma paz verdadeira e duradoura, lá onde o empenho e o exemplo dos cristãos e dos homens de boa vontade são motivados pelo respeito à justiça, pelo diálogo paciente, pela estima convicta pelos outros, pelo desinteresse, pelo sacrifício pessoal e comunitário. Infelizmente, vemos no mundo também muito sofrimento, tanta violência, tantas incompreensões. A celebração do Mistério pascal, a contemplação alegre da Ressurreição de Cristo, que vence o pecado e a morte com a força do Amor de Deus, é ocasião propícia para redescobrir e professar com mais convicção a nossa confiança no Senhor ressuscitado, que acompanha as testemunhas da sua palavra, fazendo maravilhas em conjunto com eles. Seremos verdadeiras e completas testemunhas de Jesus ressuscitado quando deixarmos transparecer em nós a maravilha do seu amor; quando em nossas palavras e, ainda mais, em nossos gestos, em plena coerência com o Evangelho, se poderá reconhecer a voz e a mão do próprio Jesus.

Para toda a parte, portanto, o Senhor nos envia como suas testemunhas. Mas o podemos ser apenas a partir e em referência contínua à experiência pascal, aquela que Maria Madalena expressa anunciando aos outros discípulos: "Eu vi o Senhor" (Jo 20, 18). Nesse encontro pessoal com o Ressuscitado está o fundamento inabalável e o conteúdo central da nossa fé, a fonte inesgotável e inexaurível da nossa esperança, o dinamismo ardente da nossa caridade. Assim, a nossa própria vida cristã coincidirá plenamente com o anúncio: "Cristo Senhor ressuscitou verdadeiramente". Deixemo-nos, por isso, conquistar pelo fascínio da Ressurreição de Cristo. A Virgem Maria nos sustente com sua proteção e ajude-nos a desfrutar plenamente da alegria pascal, para que saibamos levá-la a nossa volta e a todos os nossos irmãos.

Mais uma vez, Feliz Páscoa a todos!

Vida do cristão deve ser espelho do próprio Jesus, afirma Bento XVI


Bento XVI fala aos peregrinos no Vaticano: ''A Páscoa de Cristo é o ato supremo e insuperável do poder de Deus''
A Ressurreição é o acontecimento que dá sentido à fé cristã e faz surgir a vida nova que deve resplandecer em todo o fiel, ensinou Bento XVI durante a Catequese desta quarta-feira, 7, na Praça de São Pedro, no Vaticano.

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"Seremos verdadeiras e completas testemunhas de Jesus ressuscitado quando deixarmos transparecer em nós a maravilha do seu amor; quando em nossas palavras e, ainda mais, em nossos gestos, em plena coerência com o Evangelho, se poderá reconhecer a voz e a mão do próprio Jesus".

O Santo Padre destacou que a Ressurreição é a "boa notícia" por excelência que, embora ultrapasse a compreensão humana, é também um fato histórico.

"A Páscoa de Cristo é o ato supremo e insuperável do poder de Deus. É um evento absolutamente extraordinário, o fruto mais bonito e maduro do 'mistério de Deus'. [...] É o conteúdo central no qual cremos e o motivo principal por que acreditamos".

Exatamente por isso, todo o fiel é chamado ser testemunha no processo de transmissão constante e fiel do anúncio desse acontecimento. "A boa notícia da Páscoa, portanto, requer o trabalho de testemunhas entusiastas e corajosas. Todo o discípulo de Cristo, também cada um de nós, é chamado a ser testemunha. É esse o preciso, desafiador e emocionante mandato do Senhor Ressuscitado", salientou.

O Pontífice concluiu sua reflexão destacando que todos devem estar "confiantes de que o Senhor, hoje como ontem, trabalha em conjunto com suas testemunhas".

"Para toda a parte, portanto, o Senhor nos envia como suas testemunhas. Mas o podemos ser apenas a partir e em referência contínua à experiência pascal", encerrou, pedindo a intercessão da Virgem Maria para que todos desfrutem plenamente da alegria pascal.


Descanso

O Papa fez uma pausa no período de descanso na residência pontifícia de Castel Gandolfo - a pouco mais de 20 quilômetros de Roma - para se reunir com os fiéis provenientes de vários lugares do mundo em virtude da tradicional Catequese.

O Santo Padre fez o trajeto entre as duas cidades de helicóptero e, ao término da Catequese, retornou para a cidade do interior da Itália, em que se encontra desde a tarde do Domingo de Páscoa, 4, após a intensa programação da Semana Santa.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Catequese de Bento XVI na Quarta-feira Santa 2010

Bollettino della Sala Stampa della Santa Sede

Queridos irmãos e irmãs,

estamos vivendo os dias santos, que nos convidam a meditar os eventos centrais da nossa Redenção, o núcleo essencial da nossa fé. Amanhã começa o Tríduo Pascal, fulcro [ponto de apoio] de todo o ano litúrgico, em que somos chamados ao silêncio e à oração para contemplar o mistério da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor.

Nas homilias, os Padres fazem, muitas vezes, referência a esses dias que, como observa Santo Atanásio em uma das suas Cartas Pascais, introduzem-nos "naquele tempo que nos faz conhecer um novo início, o dia da Santa Páscoa, em que o Senhor se imolou" (Lett. 5,1-2: PG 26, 1379).

Vos exorto, portanto, a viver intensamente estes dias, a fim de que orientem decisivamente a vida de cada um à adesão generosa e convicta a Cristo, morto e ressuscitado por nós.

A Santa Missa Crismal, prelúdio matutino da Quinta-feira Santa, verá, amanhã pela manhã, reunidos os sacerdotes com o seu bispo. No curso de uma significativa celebração eucarística, que acontece geralmente nas Catedrais diocesanas, serão abençoados o Óleo dos enfermos, dos catecúmenos e do Crisma. Além disso, o Bispo e os Sacerdotes renovarão as promessas sacerdotais pronunciadas no dia da Ordenação. Tal gesto assume, neste ano, uma importância toda especial, porque se encontra no âmbito do Ano Sacerdotal, que proclamei para comemorar o 150º aniversário da morte do Santo Cura d'Ars. A todos os sacerdotes, desejo repetir o auspício que formulei na conclusão da Carta de proclamação: "A exemplo do Santo Cura d’Ars, deixai-vos conquistar por Ele e sereis também vós, no mundo atual, mensageiros de esperança, de reconciliação, de paz".

Amanhã à tarde, celebraremos o momento fundador da Eucaristia. O apóstolo Paulo, escrevendo aos Coríntios, confirmava os primeiros cristãos na verdade do mistério eucarístico, dizendo-lhes o que ele próprio havia aprendido: "O Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão e, quando ele tinha dado graças, partiu e disse: "O Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão e, depois de ter dado graças, partiu-o e disse: 'Isto é o meu corpo, que é entregue por vós; fazei isto em memória de mim'. Do mesmo modo, depois de haver ceado, tomou também o cálice, dizendo: 'Este cálice é a Nova Aliança no meu sangue; todas as vezes que o beberdes, fazei-o em memória de mim" (1 Cor 11, 23-25). Essas palavras mostram claramente a intenção de Cristo: sob as espécies do pão e do vinho, Ele está presente de modo real, com seu corpo doado e seu Sangue derramado como sacrifício da Nova Aliança. Ao mesmo tempo, Ele constitui os Apóstolos e seus sucessores ministros deste sacramento, que ele dá a sua Igreja como a prova suprema do seu amor.

Com sugestivo rito, recordaremos, além disso, o gesto de Jesus que lava os pés dos Apóstolos (cf. Jo 13, 1-25). Tal ato torna-se, para o evangelista, a representação de toda a vida de Jesus e revela o seu amor até o fim, um amor infinito, capaz de habilitar o homem à comunhão com Deus e de libertá-lo. Ao fim da liturgia da Quinta-Feira Santa, a Igreja deposita o Santíssimo Sacramento em um local especialmente preparado, que está a representar a solidão do Getsêmani e a angústia mortal de Jesus. Diante da Eucaristia, os fiéis contemplam Jesus na hora da sua solidão e rezam para que cessem todas as solidões do mundo. Esse caminho litúrgico é, também, convite a buscar o encontro íntimo com o Senhor na oração, a reconhecer Jesus entre aqueles que estão sozinhos, a vigiar com ele e a saber proclamá-lo como luz da própria vida.

Na Sexta-feira Santa, faremos memória da paixão e morte do Senhor. Jesus quis oferecer a sua vida em sacrifício para a remissão dos pecados da humanidade, escolhendo para esse fim a morte mais cruel e humilhante: a crucificação. Existe uma conexão indissociável entre a Última Ceia e a morte de Jesus. Na primeira, Jesus dá o seu Corpo e o seu Sangue, ou seja, a sua existência terrena, a si mesmo, antecipando a sua morte e transformando-a em um ato de amor. Assim, a morte, que, por sua natureza, é o fim, a destruição de toda a relação, torna-se nele ato de comunicação de si, instrumento de salvação e proclamação da vitória do amor. Desse modo, Jesus revela a chave para compreender a Última Ceia, que é antecipação da transformação da morte violenta em sacrifício voluntário, em ato de amor que redime e salva o mundo.

O Sábado Santo é caracterizado por um grande silêncio. As Igrejas são despidas e não são previstas liturgias particulares. Neste tempo de espera e esperança, os crentes são convidados à oração, à reflexão, à conversão, também através do sacramento da Reconciliação, para poder participar, intimamente renovados, da celebração da Páscoa.

Na noite do Sábado Santo, durante a solene Vigília Pascal, "mãe de todas as vigílias", tal silêncio será quebrado pelo canto do Aleluia, que anuncia a ressurreição de Cristo e proclama a vitória da luz sobre as trevas, da vida sobre a morte. A Igreja se alegrará no encontro com o Senhor, entrando no dia da Páscoa, que o Senhor inaugura ressurgindo dos mortos.

Queridos irmãos e irmãs, preparemo-nos para viver intensamente este Tríduo Santo, já iminente, para sermos sempre mais profundamente inseridos no Mistério de Cristo, morto e ressuscitado por nós. Acompanha-nos, nesse itinerário espiritual, a Virgem Santíssima. Ela, que segue Jesus na sua paixão e esteve presente sob a cruz, nos introduza no mistério pascal, para que possamos experimentar a alegria e a paz do Ressuscitado.

Com esses sentimentos, compartilho agora os mais cordiais desejos de santa Páscoa a todos vós, estendendo-os às vossas comunidades e todos os seus entes queridos.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Catequese de Bento XVI sobre São Boaventura - 03/03/2010

Vatican Information Service

Queridos irmãos e irmãs,

hoje, eu gostaria de falar sobre São Boaventura de Bagnoregio. Vos confesso que, ao propor este tema, sinto uma certa nostalgia, porque recordo das pesquisas que, como jovem estudioso, realizei sobre este autor, particularmente caro para mim. Conhecê-lo afetou de modo considerável a minha formação. Com grande alegria, alguns meses atrás, fui em uma peregrinação à sua terra natal, Bagnoregio, uma pequena cidade italiana, na região do Lácio, que preserva com veneração a memória do santo.

Nascido provavelmente em 1217 e morto em 1274, ele viveu no século XIII, época em que a fé cristã, penetrada profundamente na cultura e na sociedade da Europa, inspirou obras imperecíveis no campo da literatura, das artes visuais, filosofia e teologia. Entre as grandes figuras cristãs que contribuíram para a composição desta harmonia entre fé e cultura destaca-se precisamente Boaventura, homem de ação e contemplação, de profunda piedade e prudência no governo.

Ele se chamava Giovanni da Fidanza. Um episódio que aconteceu quando ele era garoto marcou profundamente sua vida, como ele mesmo recorda. Sofria de uma doença grave e nem mesmo seu pai, que era médico, esperava conseguir salvá-lo da morte. Sua mãe, então, recorreu à intercessão de São Francisco de Assis, canonizado fazia pouco. E Giovanni foi curado.

A figura do Pobrezinho de Assis se tornou ainda mais familiar poucos anos depois, quando se encontrava em Paris, onde ele tinha ido para seus estudos. Havia obtido o grau de Mestre de Artes, que poderíamos comparar àquele de alguma prestigiosa instituição de nosso tempo. Naquele ponto, como tantos jovens do passado e também de hoje, Giovanni fez uma pergunta crucial: "O que devo fazer da minha vida?". Fascinado pelo testemunho de fervor e radicalidade evangélica dos Frades Menores, que tinha chegado a Paris em 1219, Giovanni bateu às portas do Convento franciscano daquela cidade, e pediu para ser aceito na grande família dos discípulos de Francisco. Muitos anos mais tarde, ele explicou as razões da sua escolha: em São Francisco e no movimento por ele iniciado, conseguia perceber a ação de Cristo. Ele escreveu isso em uma carta endereçada a um outro frade: "Confesso diante de Deus que a razão que me fez amar cada vez mais a vida do Beato Francisco é que ele se parece com os tempos do início e do crescimento da Igreja. A Igreja começou com simples pescadores, e se enriqueceu, em seguida, de doutores muitos ilustres e sábios; a religião do Beato Francisco não foi estabelecida pela prudência dos homens, mas de Cristo" (Epistula de tribus quaestionibus ad magistrum innominatum, em Opere di San Bonaventura. Introduzione generale, Roma 1990, p. 29).

Por volta do ano 1243, Giovanni tomou o hábito franciscano e assumiu o nome de Boaventura. Ele foi imediatamente enviado para os estudos, e frequentou a Faculdade de Teologia da Universidade de Paris, seguindo uma série de cursos bastante desafiadores e exigentes. Conseguiu vários títulos na carreira acadêmica, incluindo o de "baccelliere biblico" e de "baccelliere sentenziario". Assim, Boaventura estudou a fundo as Sagradas Escrituras, as Sentenças de Pedro Lombardo, um manual de teologia daquele tempo, e os mais importantes escritores de teologia e, em contato com os professores e estudantes de toda a Europa que afluíam a Paris, amadureceu sua própria reflexão pessoal e uma sensibilidade espiritual de grande valor que, ao longo dos anos que se seguiram, soube transfundir em suas obras e em seus sermões, tornando-se assim um dos teólogos mais importantes da história da Igreja. É significativo recordar o título da tese que defendeu a fim de ser habilitado ao ensino da teologia, a licentia ubique docendi, como se dizia então. Sua dissertação tinha como título Questões sobre o conhecimento de Cristo. Este argumento mostra o papel central que Cristo sempre teve na vida e no ensinamento de Boaventura. Podemos dizer, sem hesitação, que todo o seu pensamento foi profundamente cristocêntrico.

Naqueles anos, em Paris, a cidade de adoção de São Boaventura, se reproduzia uma violenta polêmica contra os Frades Menores de Francisco de Assis e os Frades Pregadores de Domingos de Gusmão. Se contestava o direito de que eles ensinassem na Universidade, e se duvidava até mesmo da autenticidade de suas vidas consagradas. Certamente, as alterações introduzidas pelas Ordens Mendicantes no modo de compreender a vida religiosa, que eu mencionei nas Catequeses anteriores, eram tão inovadoras que nem todos podiam compreendê-las. Acrescente-se também, como algumas vezes acontece mesmo entre pessoas sinceramente religiosas, os motivos da fraqueza humana, como a inveja e o ciúme. Boaventura, também cercado pela oposição dos outros professores universitários, já havia começado a ensinar na cadeira de teologia dos Franciscanos e, em resposta aos críticos das ordens Mendicantes, compôs um ensaio intitulado A perfeição evangélica. Ali, mostra como as Ordens Mendicantes, especialmente os Frades Menores, praticando os votos de pobreza, castidade e obediência, seguiam os conselhos do próprio Evangelho. Para além destas circunstâncias históricas, o ensinamento ministrado por Boaventura nesta sua obra e na sua vida permanece sempre atual: a Igreja fica mais luminosa e bonita na fidelidade à vocação daqueles filhos e filhas que não somente colocam em prática os preceitos evangélicos, mas, pela graça de Deus, são chamados a observar os conselhos e testemunhos também com seu estilo de vida pobre, casto e obediente, de que o Evangelho é a fonte de alegria e perfeição.

O conflito foi aquietado, pelo menos por um tempo, e, por intervenção pessoal do Papa Alexandre IV, em 1257, Boaventura foi oficialmente reconhecido doutor e mestre da Universidade parisiense. Todavia, ele teve que renunciar a este prestigioso posto, porque nesse mesmo ano o Capítulo Geral da Ordem o elegeu Ministro Geral. Realizou essa missão durante dezessete anos com sabedoria e dedicação, visitando as províncias, escrevendo aos irmãos, falando às vezes com uma certa severidade para eliminar os abusos. Quando Boaventura começou este serviço, a Ordem dos Frades Menores havia crescido de modo prodigioso: eram mais de 30.000 frades espalhados por todo o Ocidente, com presença missionária no Norte de África, Oriente Médio e até mesmo em Pequim. Era necessário consolidar essa expansão e, sobretudo, conferi-la em plena fidelidade ao carisma de São Francisco, unidade de ação e do espírito. De fato, entre os seguidores do santo de Assis, havia diferentes maneiras de interpretar a mensagem e existia realmente o risco de uma ruptura interna. Para evitar este perigo, o Capítulo Geral da Ordem em Narbona, em 1260, aceitou e ratificou um texto proposto por Boaventura, no qual se reuniu e unificou as normas que regeriam a vida quotidiana dos Frades Menores. Boaventura intuía, no entanto, que as disposições legislativas, embora inspirassem a sabedoria e a moderação, não eram suficientes para assegurar a comunhão do espírito e do coração. Era necessário partilhar os mesmos ideais e as mesmas motivações. Por esta razão, Boaventura quis apresentar o autêntico carisma de Francisco, sua vida e seu ensinamento. Recolheu, por isso, com grande zelo os documentos relativos ao Pobrezinho e ouviu atentamente as memórias daqueles que haviam conhecido Francisco diretamente. Isso deu origem a uma biografia, historicamente fundamentada, do santo de Assis, intitulada Legenda Maior, também escrita de modo mais sucinto, e chamada Legenda Menor. A palavra latina, "Legenda", ao contrário do italiano, não indica um fruto da fantasia, mas, pelo contrário, "Legenda" significa um texto oficial, "a se ler" oficialmente. De fato, o Capítulo Geral dos Frades Menores, de 1263, reunidos em Pisa, reconheceram na biografia de São Boaventura o retrato mais fiel do fundador e se tornou a biografia oficial do santo.

Qual é a imagem de São Francisco que emerge do coração e dos escritos de seu filho devoto e sucessor, São Boaventura? Ponto essencial, Francisco é um alter Christus, um homem que se se aproximou apaixonadamente de Cristo. No amor que leva à imitação, ele se configurou plenamente com Ele. Boaventura apontava este vivo ideal para todos os seguidores de Francisco. Esse ideal, válido para todos os cristãos, ontem, hoje e sempre, foi identificado como um programa também para a Igreja do Terceiro Milênio pelo meu Venerado Predecessor João Paulo II. Tal programa, ele escreveu na Carta Novo Millennio ineunte, se concentra "no próprio Cristo, que temos de conhecer, amar, imitar, para n'Ele viver a vida trinitária e com Ele transformar a história até à sua plenitude na Jerusalém celeste" (n. 29).

Em 1273 a vida de São Boaventura experimentou uma outra mudança. O Papa Gregório X desejou sagrá-lo Bispo e nomeá-lo Cardeal. Ele também foi convidado a preparar um importantíssimo evento eclesial: o II Concílio Ecumênico de Lyon, que tinha como objetivo o restabelecimento da comunhão entre a Igreja Latina e a Grega. Ele se dedicou a esta tarefa com diligência, mas não conseguiu ver a conclusão daquele assembleia ecumênica, porque morreu durante o seu desenrolar. Um notável anônimo pontifício compôs um elogio de Boaventura, que nos oferece um retrato conclusivo deste grande santo e excelente teólogo: "Homem bom, afável, piedoso e misericordioso, cheio de virtudes, amado por Deus e pelos homens [...] Deus, de fato, lhe tinha dado tal graça que todos aqueles que o viam ficavam imbuídos de um amor que o coração não conseguia esconder" (cf. J.G. Bougerol, Bonaventura, in A. Vauchez (a cura), Storia dei santi e della santità cristiana. Vol. VI. L’epoca del rinnovamento evangelico, Milano 1991, p. 91).

Recolhamos a herança deste santo Doutor da Igreja, que nos recorda o sentido da nossa vida, com as seguintes palavras: "Sobre a terra [...] podemos contemplar a imensidão de Deus mediante o raciocínio e a admiração; na pátria celeste, ao contrário, mediante a visão, quando seremos feitos semelhantes a Deus, e através do êxtase [...] entraremos na alegria de Deus" (La conoscenza di Cristo, q. 6, conclusione, in Opere di San Bonaventura. Opuscoli Teologici /1, Roma 1993, p. 187).

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Catequese de Bento XVI na Quarta Feira de Cinzas 2010


Catequese de Bento XVI na Quarta-feira de Cinzas 2010


Vatican Information Service, com tradução de CN Notícias


Queridos irmãos e irmãs!

iniciamos hoje, Quarta-feira de cinzas, o caminho quaresmal: um caminho que se desenrola por quarenta dias e que nos leva à alegria da Páscoa do Senhor. Neste itinerário espiritual não estamos sozinhos, porque a Igreja nos acompanha e nos apoia desde o início com a Palavra de Deus, que inclui um programa de vida espiritual e empenho penitencial, e com a graça dos Sacramentos.

São as palavras do apóstolo Paulo que nos apresentam uma entrega necessária: "Exortamo-vos a que não recebais a graça de Deus em vão. [...] Agora é o tempo favorável, agora é o dia da salvação!" (II Cor 6, 1-2). Com efeito, na visão cristã da vida, todos os momentos devem ser favoráveis e todo o dia deve ser dia de salvação, mas a liturgia da Igreja refere esta palavra de um modo todo particular neste tempo da Quaresma. E que os quarenta dias de preparação para a Páscoa são um tempo favorável e de graça o podemos realmente compreender no apelo que o austero rito de imposição das cinzas nos dirige e que se expressa com duas fórmulas: "Convertei-vos e crede no evangelho!", "Lembra-te que és pó e ao pó voltarás".

O primeiro convite é à conversão, palavra que deve ser compreendida em sua extraordinária seriedade, colhendo a surpreendente novidade que expressa. O apelo à conversão, de fato, expõe e denuncia a superficialidade fácil que muitas vezes caracteriza o nosso viver. Converter-se significa mudar a direção no caminho da vida: não, porém, com um pequeno ajuste, mas com uma verdadeira e real inversão de marcha. A conversão é ir contra a corrente, onde a "corrente" é o estilo de vida superficial, incoerente e ilusório, que muitas vezes nos arrasta, nos domina e nos torna escravos do mal ou como que prisioneiros da mediocridade moral. Com a conversão, ao contrário, se aponta para a medida alta da vida cristã, nos confiamos ao Evangelho vivo e pessoal, que é Cristo Jesus. É a Sua pessoa o objetivo final e o significado profundo da conversão, é Ele o caminho ao qual todos somos chamados a caminhar na vida, deixando-se iluminar pela sua luz e sustentar pela sua força que move os nossos passos. Desse modo, a conversão manifesta a sua face mais esplêndida e fascinante: não é apenas uma simples decisão moral, que corrige os nossos modos de vida, mas é uma escolha de fé, que nos atrai inteiramente na comunhão íntima com a pessoa viva e concreta de Jesus. Converter-se e crer no Evangelho não são duas coisas distintas ou, de qualquer modo, justapostas entre si, mas expressam a mesma realidade. A conversão é o "sim" total de quem entrega a própria existência ao Evangelho, respondendo livremente a Cristo que por primeiro se oferece ao homem como caminho, verdade e vida, como aquele que o livra e salva. Exatamente esse é o significado das primeiras palavras com que, segundo o evangelista Marcos, Jesus abre a pregação do "Evangelho de Deus": ""Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo; fazei penitência e crede no Evangelho" (Mc 1, 15).

O "convertei-vos e crede no evangelho" não está apenas ao início da vida cristã, mas acompanha todos os seus passos, ainda que se renovando e difundindo ramos em todas as suas expressões. Cada dia é um momento favorável e de graça, porque todos os dias nos solicitam uma entrega a Jesus, a ter confiança n'Ele, a permanecer n'Ele, a compartilhar de Seu estilo de vida, a aprender d'Ele o amor verdadeiro, a segui-Lo no cumprimento cotidiano da vontade do Pai, a única grande lei da vida. Todos os dias, também lá nas dificuldades e fadigas, nos cansaços e nas quedas, mesmo quando somos tentados a abandonar o caminho do seguimento de Cristo e fechar-mo-nos em nós mesmos, no nosso egoísmo, sem dar-se conta da necessidade que temos de nos abrir ao amor de Deus em Cristo, para viver a mesma lógica da justiça e do amor. Na recente Mensagem para a Quaresma, desejei recordar que "é necessário humildade para aceitar que se precisa que um Outro me liberte do 'meu' para me dar gratuitamente o 'seu'. Isto acontece particularmente nos sacramentos da Penitência e da Eucaristia. Graças à ação de Cristo, nós podemos entrar na justiça 'maior', que é aquela do amor (cf. Rom 13,8-10), a justiça de quem se sente, em todo o caso, sempre mais devedor do que credor, porque recebeu mais do que aquilo que poderia esperar".

O momento favorável e de graça da Quaresma mostra-nos o seu próprio significado espiritual através da antiga fórmula: Recorda-te que és pó e ao pó voltarás, que o sacerdote pronuncia quando impõe sobre a nossa cabeça um pouco de cinzas. Somos, assim, reportados ao início da história humana, quando o Senhor disse a Adão depois do pecado original: "Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste tirado; porque és pó, e pó te hás de tornar" (Gn 3, 19). Aqui, a palavra de Deus nos recorda de nossa fragilidade, também de nossa morte, que é a sua forma mais extrema. Frente ao medo inato do fim, e ainda mais no contexto de uma cultura que, de diversos modos, tende a censurar a realidade e a experiência humana de morrer, a liturgia quaresmal, por um lado, nos lembra da morte e nos convida ao realismo e à sabedoria, mas, por outro lado, exorta-nos sobretudo a compreender e a viver na novidade inesperada que a fé cristã irradia na realidade da própria morte.

O homem é pó e ao pó retornará, mas é pó precioso aos olhos de Deus, porque Deus criou o homem destinando-o à imortalidade. Assim, a fórmula litúrgica "Lembra-te que és pó e ao pó voltarás" encontra a plenitude de seu significado em referência ao novo Adão, Cristo. Também o Senhor Jesus quis livremente compartilhar com todos os homens o destino da fragilidade, especialmente através de sua morte na cruz; mas é esta morte, cheia do Seu amor pelo Pai e pela humanidade, que se torna caminho para a gloriosa ressurreição, através do qual Cristo se tornou uma fonte de graça dada àqueles que crêem n'Ele e se tornam participantes de sua própria vida divina. Esta vida que não terá fim já está em curso na fase terrena da existência, mas será levada a termo após "a ressurreição da carne". O pequeno gesto de imposição das cinzas nos revela a extraordinária riqueza de seu significado: é um convite à percorrer o Tempo Quaresmal como uma imersão mais conciente e intensa no mistério pascal de Jesus, em sua morte e ressurreição, através da participação na Eucaristia e da vida de caridade, que nasce da Eucaristia e na qual encontra sua realização. Com a imposição das cinzas, renovamos o nosso compromisso de seguir Jesus, de nos deixar ser transformado por seu mistério pascal, para vencer o mal e fazer o bem, para fazer morrer o nosso "homem velho" ligado ao pecado e fazer nascer o "homem novo" transformado pela graça de Deus.

Queridos amigos! Enquanto nos preparamos para percorrer o austero itinerário quaresmal, queremos invocar com particular confiança a proteção e a ajuda da Virgem Maria. Seja Ela, a primeira crente em Cristo, a acompanhar-nos nestes quarenta dias de intensa oração e de sincera penitência, a fim de celebrar, purificados e totalmente renovados na mente e no espírito, o grande mistério da Páscoa de Seu Filho.

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