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sexta-feira, 14 de maio de 2010

Homilia Papa nas Vésperas com Padres e consagrados. "A fidelidade no tempo é o nome do amor".

Queridos irmãos e irmãs,

«Ao chegar a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher […] para nos tornar seus filhos adoptivos» (Gal 4, 4.5). A plenitude dos tempos chegou, quando o Eterno irrompeu no tempo; por obra e graça do Espírito Santo, o Filho do Altíssimo foi concebido e fez-Se homem no seio de uma mulher: a Virgem Mãe, tipo e modelo excelso da Igreja crente. Esta não cessa de gerar novos filhos no Filho, que o Pai quis primogénito de muitos irmãos. Cada um de nós é chamado a ser, com Maria e como Maria, um sinal humilde e simples da Igreja que continuamente se oferece como esposa nas mãos do seu Senhor.

A todos vós que doastes a vida a Cristo, desejo nesta tarde exprimir o apreço e reconhecimento eclesial. Obrigado pelo vosso testemunho muitas vezes silencioso e nada fácil; obrigado pela vossa fidelidade ao Evangelho e à Igreja. Em Jesus presente na Eucaristia, abraço os meus irmãos no sacerdócio e os diáconos, consagradas e consagrados, seminaristas e membros dos movimentos e novas comunidades eclesiais aqui presentes. Queira o Senhor recompensar, como só Ele sabe e pode fazer, quantos tornaram possível encontrarmo-nos aqui junto de Jesus Eucaristia, designadamente a Comissão Episcopal das Vocações e Ministérios com o seu Presidente, Dom António Santos, a quem agradeço as palavras repassadas de afecto colegial e fraterno pronunciadas no início das Vésperas. Neste ideal «cenáculo» de fé que é Fátima, a Virgem Mãe indica-nos o caminho para a nossa oblação pura e santa nas mãos do Pai.

Permiti abrir-vos o coração para vos dizer que a principal preocupação de todo o cristão, nomeadamente da pessoa consagrada e do ministro do Altar, há-de ser a fidelidade, a lealdade à própria vocação, como discípulo que quer seguir o Senhor. A fidelidade no tempo é o nome do amor; de um amor coerente, verdadeiro e profundo a Cristo Sacerdote. «Se o Baptismo é um verdadeiro ingresso na santidade de Deus através da inserção em Cristo e da habitação do seu Espírito, seria um contra-senso contentar-se com uma vida medíocre, pautada por uma ética minimalista e uma religiosidade superficial» (João Paulo II, Carta ap. Novo millennio ineunte, 31). Neste Ano Sacerdotal, já a caminho do fim, uma graça abundante desça sobre todos vós para viverdes a alegria da consagração e testemunhardes a fidelidade sacerdotal alicerçada na fidelidade de Cristo. Isto supõe, evidentemente, uma verdadeira intimidade com Cristo na oração, pois será a experiência forte e intensa do amor do Senhor que há-de levar os sacerdotes e os consagrados a corresponderem ao seu amor de modo exclusivo e esponsal.

Esta vida de especial consagração nasceu como memória evangélica para o povo de Deus, memória que manifesta, atesta e anuncia a toda a Igreja o radicalismo evangélico e a vinda do Reino. Pois bem, queridos consagrados e consagradas, com o vosso empenho na oração, na ascese, no progresso da vida espiritual, na acção apostólica e na missão, tendeis para a Jerusalém Celeste, antecipais a Igreja escatológica, firme na posse e contemplação amorosa de Deus-Amor. Como é grande, hoje, a necessidade deste testemunho! Muitos dos nossos irmãos vivem como se não houvesse um Além, sem se importar com a própria salvação eterna. Os homens são chamados a aderir ao conhecimento e ao amor de Deus, e a Igreja tem a missão de os ajudar nesta vocação. Bem sabemos que Deus é senhor dos seus dons; e a conversão dos homens é graça. Mas somos responsáveis pelo anúncio da fé, da totalidade da fé, e das suas exigências. Queridos amigos, imitemos o Cura d’Ars que assim rezava ao bom Deus: «Concedei-me a conversão da minha paróquia, e eu estou pronto a sofrer o que Vós quiserdes, todo o resto da vida». E tudo fez para arrancar as pessoas à própria tibieza a fim de as reconduzir ao amor.

Há uma solidariedade profunda entre todos os membros do Corpo de Cristo: não é possível amá-Lo, sem amar os seus irmãos. Foi para a salvação deles que João Maria Vianney quis ser sacerdote: «Ganhar as almas para o Bom Deus», declarava ele ao anunciar a sua vocação, aos dezoito anos de idade, tal como Paulo dizia: «Ganhar a todos» (1 Cor 9, 19). O Vigário Geral tinha-lhe dito: «Não há muito amor de Deus na paróquia, vós introduzi-lo-eis». E, na sua paixão sacerdotal, o santo pároco era misericordioso como Jesus no encontro com cada pecador. Preferia insistir sobre o lado atraente da virtude, sobre a misericórdia de Deus diante da qual os nossos pecados são «grãos de areia». Mostrava a ternura de Deus ofendida. Temia que os sacerdotes «se insensibilizassem» e habituassem à indiferença dos seus fiéis: «Ai do Pastor – advertia – que fica calado ao ver Deus ultrajado e as almas perderem-se!»

Amados irmãos sacerdotes, neste lugar que Maria fez tão especial, tendo diante dos olhos a sua vocação de discípula fiel do Filho Jesus desde a sua conceição até à Cruz e depois no caminho da Igreja nascente, considerai a graça inaudita do vosso sacerdócio. A fidelidade à própria vocação exige coragem e confiança, mas o Senhor quer também que saibais unir as vossas forças; sede solícitos uns pelos outros, sustentando-vos fraternalmente. Os momentos de oração e estudo em comum, de partilha das exigências da vida e trabalho sacerdotal são uma parte necessária da vossa vida. Como é maravilhoso quando vos acolheis uns aos outros nas vossas casas, com a paz de Cristo nos vossos corações! Como é importante que vos ajudeis mutuamente por meio da oração e com conselhos e discernimentos úteis! Particular atenção vos devem merecer as situações de um certo esmorecimento dos ideais sacerdotais ou a dedicação a actividades que não concordem integralmente com o que é próprio de um ministro de Jesus Cristo. Então é hora de assumir, juntamente com o calor da fraternidade, a atitude firme do irmão que ajuda seu irmão a manter-se de pé.

Embora o sacerdócio de Cristo seja eterno (cf. Heb 5, 6), a vida dos sacerdotes é limitada. Cristo quer que outros perpetuem ao longo dos tempos o sacerdócio ministerial por Ele instituído. Por isso mantende, dentro de vós e ao vosso redor, a inquietude por suscitar – secundando a graça do Espírito Santo – novas vocações sacerdotais entre os fiéis. A oração confiante e perseverante, o amor jubiloso à própria vocação e um dedicado trabalho de direcção espiritual permitir-vos-ão discernir o carisma vocacional naqueles que são chamados por Deus.

A vós, queridos seminaristas, que já destes o primeiro passo para o sacerdócio e estais a preparar-vos no Seminário Maior ou nas Casas de Formação Religiosa, o Papa encoraja-vos a serdes conscientes da grande responsabilidade que ides assumir: examinai bem as intenções e as motivações; dedicai-vos com ânimo forte e espírito generoso à vossa formação. A Eucaristia, centro da vida do cristão e escola de humildade e serviço, deve ser o objecto principal do vosso amor. A adoração, a piedade e o cuidado do Santíssimo Sacramento, durante estes anos de preparação, farão com que um dia celebreis o Sacrifício do Altar com unção edificante e verdadeira.

Neste caminho de fidelidade, amados sacerdotes e diáconos, consagrados e consagradas, seminaristas e leigos comprometidos, guia-nos e acompanha-nos a Bem-aventurada Virgem Maria. Com Ela e como Ela somos livres para ser santos; livres para ser pobres, castos e obedientes; livres para todos, porque desapegados de tudo; livres de nós mesmos para que em cada um cresça Cristo, o verdadeiro consagrado do Pai e o Pastor ao qual os sacerdotes emprestam voz e gestos, de Quem são presença; livres para levar à sociedade actual Jesus Cristo morto e ressuscitado, que permanece connosco até ao fim dos séculos e a todos Se dá na Santíssima Eucaristia.


Homilia de Bento XVI na Esplanada do Santuário de Fátima


Bolletino della Sala Stampa della Santa Sede


Queridos peregrinos,



"A linhagem do povo de Deus será conhecida […] como linhagem que o Senhor abençoou" (Is 61, 9). Assim começava a primeira leitura desta Eucaristia, cujas palavras encontram uma realização admirável nesta devota assembleia aos pés de Nossa Senhora de Fátima. Irmãs e irmãos muito amados, também eu vim como peregrino a Fátima, a esta "casa" que Maria escolheu para nos falar nos tempos modernos. Vim a Fátima para rejubilar com a presença de Maria e sua materna protecção. Vim a Fátima, porque hoje converge para aqui a Igreja peregrina, querida pelo seu Filho como instrumento de evangelização e sacramento de salvação. Vim a Fátima para rezar, com Maria e tantos peregrinos, pela nossa humanidade acabrunhada por misérias e sofrimentos. Enfim, com os mesmos sentimentos dos Beatos Francisco e Jacinta e da Serva de Deus Lúcia, vim a Fátima para confiar a Nossa Senhora a confissão íntima de que "amo", de que a Igreja, de que os sacerdotes "amam" Jesus e n’Ele desejam manter fixos os olhos ao terminar este Ano Sacerdotal, e para confiar à protecção materna de Maria os sacerdotes, os consagrados e consagradas, os missionários e todos os obreiros do bem que tornam acolhedora e benfazeja a Casa de Deus.



São a linhagem que o Senhor abençoou… Linhagem que o Senhor abençoou és tu, amada diocese de Leiria-Fátima, com o teu Pastor Dom António Marto, a quem agradeço a saudação inicial e todas as atenções com que me cumulou nomeadamente através de seus colaboradores neste santuário. Saúdo o Senhor Presidente da República e demais autoridades ao serviço desta Nação gloriosa. Idealmente abraço todas as dioceses de Portugal, aqui representadas pelos seus Bispos, e confio ao Céu todos os povos e nações da terra. Em Deus, estreito ao coração todos os seus filhos e filhas, especialmente quantos vivem atribulados ou abandonados, no desejo de comunicar-lhes aquela esperança grande que arde no meu coração e que, em Fátima, se faz encontrar mais sensivelmente. A nossa grande esperança lance raízes na vida de cada um de vós, amados peregrinos aqui presentes, e de quantos estão em comunhão connosco através dos meios de comunicação social.



Sim! O Senhor, a nossa grande esperança, está connosco; no seu amor misericordioso, oferece um futuro ao seu povo: um futuro de comunhão consigo. Tendo experimentado a misericórdia e consolação de Deus que não o abandonara no fatigante caminho do regresso do exílio de Babilónia, o povo de Deus exclama: "Exulto de alegria no Senhor, a minha alma rejubila no meu Deus" (Is 61, 10). Filha excelsa deste povo é a Virgem Mãe de Nazaré, a qual, revestida de graça e docemente surpreendida com a gestação de Deus que se estava operando no seu seio, faz igualmente sua esta alegria e esta esperança no cântico do Magnificat: "O meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador". Entretanto não se vê como privilegiada no meio de um povo estéril, antes profetiza-lhe as doces alegrias duma prodigiosa maternidade de Deus, porque "a sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que O temem" (Lc 1, 47.50).



Prova disto mesmo é este lugar bendito. Mais sete anos e voltareis aqui para celebrar o centenário da primeira visita feita pela Senhora "vinda do Céu", como Mestra que introduz os pequenos videntes no conhecimento íntimo do Amor Trinitário e os leva a saborear o próprio Deus como o mais belo da existência humana. Uma experiência de graça que os tornou enamorados de Deus em Jesus, a ponto da Jacinta exclamar: "Gosto tanto de dizer a Jesus que O amo. Quando Lho digo muitas vezes, parece que tenho um lume no peito, mas não me queimo". E o Francisco dizia: "Do que gostei mais foi de ver a Nosso Senhor, naquela luz que Nossa Senhora nos meteu no peito. Gosto tanto de Deus!" (Memórias da Irmã Lúcia, I, 40 e 127).



Irmãos, ao ouvir estes inocentes e profundos desabafos místicos dos Pastorinhos, poderia alguém olhar para eles com um pouco de inveja por terem visto ou com a desiludida resignação de quem não teve essa sorte mas insiste em ver. A tais pessoas, o Papa diz como Jesus: "Não andareis vós enganadas, ignorando as Escrituras e o poder de Deus?" (Mc 12, 24). As Escrituras convidam-nos a crer: "Felizes os que acreditam sem terem visto" (Jo 20, 29), mas Deus – mais íntimo a mim mesmo de quanto o seja eu próprio (cf. Santo Agostinho, Confissões, III, 6, 11) – tem o poder de chegar até nós nomeadamente através dos sentidos interiores, de modo que a alma recebe o toque suave de algo real que está para além do sensível, tornando-a capaz de alcançar o não-sensível, o não-visível aos sentidos. Para isso exige-se uma vigilância interior do coração que, na maior parte do tempo, não possuímos por causa da forte pressão das realidades externas e das imagens e preocupações que enchem a alma (cf. Card. Joseph Ratzinger, Comentário teológico da Mensagem de Fátima, ano 2000). Sim! Deus pode alcançar-nos, oferecendo-Se à nossa visão interior.



Mais ainda, aquela Luz no íntimo dos Pastorinhos, que provém do futuro de Deus, é a mesma que se manifestou na plenitude dos tempos e veio para todos: o Filho de Deus feito homem. Que Ele tem poder para incendiar os corações mais frios e tristes, vemo-lo nos discípulos de Emaús (cf. Lc 24, 32). Por isso a nossa esperança tem fundamento real, apoia-se num acontecimento que se coloca na história e ao mesmo tempo excede-a: é Jesus de Nazaré. E o entusiasmo que a sua sabedoria e poder salvífico suscitavam nas pessoas de então era tal que uma mulher do meio da multidão – como ouvimos no Evangelho – exclama: "Feliz Aquela que Te trouxe no seu ventre e Te amamentou ao seu peito". Contudo Jesus observou: "Mais felizes são os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática" (Lc 11, 27. 28). Mas quem tem tempo para escutar a sua palavra e deixar-se fascinar pelo seu amor? Quem vela, na noite da dúvida e da incerteza, com o coração acordado em oração? Quem espera a aurora do dia novo, tendo acesa a chama da fé? A fé em Deus abre ao homem o horizonte de uma esperança certa que não desilude; indica um sólido fundamento sobre o qual apoiar, sem medo, a própria vida; pede o abandono, cheio de confiança, nas mãos do Amor que sustenta o mundo.



"A linhagem do povo de Deus será conhecida […] como linhagem que o Senhor abençoou" (Is 61, 9) com uma esperança inabalável e que frutifica num amor que se sacrifica pelos outros, mas não sacrifica os outros; antes – como ouvimos na segunda leitura – "tudo desculpa, tudo acredita, tudo espera, tudo suporta" (1 Cor 13, 7). Exemplo e estímulo são os Pastorinhos, que fizeram da sua vida uma doação a Deus e uma partilha com os outros por amor de Deus. Nossa Senhora ajudou-os a abrir o coração à universalidade do amor. De modo particular, a beata Jacinta mostrava-se incansável na partilha com os pobres e no sacrifício pela conversão dos pecadores. Só com este amor de fraternidade e partilha construiremos a civilização do Amor e da Paz.



Iludir-se-ia quem pensasse que a missão profética de Fátima esteja concluída. Aqui revive aquele desígnio de Deus que interpela a humanidade desde os seus primórdios: "Onde está Abel, teu irmão? […] A voz do sangue do teu irmão clama da terra até Mim" (Gn 4, 9). O homem pôde despoletar um ciclo de morte e terror, mas não consegue interrompê-lo… Na Sagrada Escritura, é frequente aparecer Deus à procura de justos para salvar a cidade humana e o mesmo faz aqui, em Fátima, quando Nossa Senhora pergunta: "Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em acto de reparação pelos pecados com que Ele mesmo é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?" (Memórias da Irmã Lúcia, I, 162).



Com a família humana pronta a sacrificar os seus laços mais sagrados no altar de mesquinhos egoísmos de nação, raça, ideologia, grupo, indivíduo, veio do Céu a nossa bendita Mãe oferecendo-Se para transplantar no coração de quantos se Lhe entregam o Amor de Deus que arde no seu. Então eram só três, cujo exemplo de vida irradiou e se multiplicou em grupos sem conta por toda a superfície da terra, nomeadamente à passagem da Virgem Peregrina, que se votaram à causa da solidariedade fraterna. Possam os sete anos que nos separam do centenário das Aparições apressar o anunciado triunfo do Coração Imaculado de Maria para glória da Santíssima.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Homilia de Bento XVI nas exéquias do Cardeal Paul Mayer

Bollettino della Sala Stampa della Santa Sede

Venerados Irmãos,

Ilustres Senhores e Senhoras,

Queridos irmãos e irmãs!


Também para o nosso amado Irmão Cardeal Paul Augustin Mayer chegou a hora de partir deste mundo. Ele nasceu, há quase um século, na minha própria terra, precisamente em Altötting, onde fica o célebre Santuário mariano a que estão ligados tantos afetos e memórias de nós da Baviera. Assim é o destino da existência humana: floresce na terra - em um ponto preciso do mundo - e é chamada ao Céu, à pátria de que misteriosamente provém. "Desiderat anima mea ad te, Deus" [Minha alma deseja a ti, Deus] (Salmo 41/42, 2). Nesse verbo "desiderat" está todo o homem, o seu ser carne e espírito, terra e céu. É o mistério original da imagem de Deus no homem. O jovem Paul - que, depois de monge, se chamará Augustin Mayer - estudou esse tema nos escritos de Clemente Alexandrino para o seu doutoramento em teologia. É o mistério da vida eterna, depositada em nós como uma semente a partir do Batismo, e que pede para ser aceita ao longo do percurso da nossa vida, até o dia em que o espírito volta a Deus Pai.


"Pater, in manus tuas commendo spiritum meum" [Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito] (Lc 23 46). As últimas palavras de Jesus na cruz guiam-nos na oração e na meditação, enquanto nos reunimos em torno do altar para dar o último adeus a nosso saudoso Irmão. Toda a nossa celebração exequial se realiza sob o signo da esperança: no último suspiro de Jesus na cruz (cf. Lc 23 46, Jo 19, 30), Deus doa-se inteiramente à humanidade, preenchendo a lacuna aberta pelo pecado e restaurando a vitória da vida sobre a morte. Por isso, cada homem que morre no Senhor participa pela fé deste ato de amor infinito, em que, de alguma forma, entrega o espírito juntamente com Cristo, na segura esperança de que a mão do Pai o ressuscitará dos mortos e o introduzirá no Reino da vida.


"A esperança não decepciona - afirma o apóstolo Paulo escrevendo aos cristãos de Roma -, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado" (Rm 5, 5). A grande e infalível esperança, fundada sobre a rocha sólida do amor de Deus, nos assegura que a vida daqueles que morrem em Cristo "não é tirada, mas transformada"; e que "enquanto se destrói a casa deste exílio terreno, é preparada uma habitação eterna no céu" (Prefácio dos Defuntos I). Em uma época como a nossa, em que o medo da morte coloca muitas pessoas no desespero e na busca de consolações ilusórias, o cristão distingue-se pelo fato de que coloca a sua segurança em Deus, em um Amor tão grande que pode renovar o mundo inteiro. "Eis que faço novas todas as coisas" (Ap 21, 5), declara - rumo ao final do livro do Apocalipse - Aquele sentado no trono. A visão da nova Jerusalém exprime a realização do desejo mais profundo da humanidade: aquele de viver juntos na paz, sem mais a ameaça da morte, mas desfrutando da plena comunhão com Deus e entre nós. A Igreja e, em particular, a comunidade monástica, constituem uma prefiguração sobre a terra desta meta final. É uma antecipação imperfeita, marcada por limites e pecados, e, portanto, sempre necessitada de conversão e purificação; e, todavia, na comunidade eucarística se prenuncia a vitória do amor de Cristo sobre aquilo que divide e mortifica. "Congregavit nos in unum Christi amor" - "O amor de Cristo nos congrega": esse é o lema episcopal do nosso venerado Irmão que nos deixou. Como filho de São Bento, experimentou a promessa do Senhor: "O vencedor herdará tudo isso; / e eu serei seu Deus, e ele será meu filho" (Ap 21, 7).


Formado na escola dos Padres Beneditinos da Abadia de São Miguel em Metten, em 1931 fez a profissão monástica. Por toda a sua existência, buscou realizar aquilo que São Bento diz na regra: "Nada se interponha ao amor de Cristo". Após os estudos em Salisburgo e Roma, começou uma longa e valorosa atividade de ensino no Pontifício Ateneu Santo Anselmo, onde se tornou reitor em 1949, posição que ocupou durante 17 anos. Exatamente naquele período era fundado o Pontifício Instituto Litúrgico, que se tornou um ponto de referência fundamental para a preparação de formadores no campo da Liturgia. Eleito, após o Concílio, Abade de sua amada Abadia de Metten, ocupou tal cargo por cinco anos, mas já em 1972 o Servo de Deus Papa Paulo VI nomeou-o secretário da Congregação para os Religiosos e Institutos Seculares e quis pessoalmente sagrá-lo Bispo em 13 de fevereiro de 1972.


Durante os anos de serviço nesse Dicastério, promoveu a aplicação gradual das disposições do Concílio Vaticano II no que diz respeito às famílias religiosas. Nesse âmbito particular, na sua qualidade de religioso, foi capaz de demonstrar uma forte sensibilidade humana e eclesial. Em 1984, o Venerável João Paulo II confiou-lhe o encargo de prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, criando-o pois Cardeal no Consistório de 25 de Maio de 1985 e assinalando-lhe o título de Santo Anselmo no Aventino. Em seguida, nomeou-o primeiro presidente da Pontifícia Comissão "Ecclesia Dei"; e também nessa nova e delicada tarefa o Cardeal Mayer confirmou-se zeloso e fiel servo, buscando aplicar o conteúdo de seu lema: "O amor de Cristo nos congrega".


Queridos irmãos, a nossa vida está, a cada instante, nas mãos do Senhor, sobretudo no momento da morte. Por isso, com a confiante invocação de Jesus na cruz: "Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito", desejamos acompanhar o nosso Irmão Paul Augustin, enquanto cumpre a sua passagem deste mundo para o Pai. Neste momento, meu pensamento não pode deixar de ir para o Santuário da Mãe das graças de Altötting. Espiritualmente voltados àquele lugar de peregrinação, confiamos à Virgem Santa a nossa oração de sufrágio pelo falecido Cardeal Mayer. Ele nasceu próximo àquele santuário, conformou a sua vida a Cristo segundo a Regra beneditina, e morreu à sombra desta Basílica Vaticana. Nossa Senhora, São Pedro e São Bento acompanhem este fiel discípulo do Senhor no seu Reino de luz e de paz. Amém.


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