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terça-feira, 4 de maio de 2010

Homilia de Bento XVI nas exéquias do Cardeal Paul Mayer

Bollettino della Sala Stampa della Santa Sede

Venerados Irmãos,

Ilustres Senhores e Senhoras,

Queridos irmãos e irmãs!


Também para o nosso amado Irmão Cardeal Paul Augustin Mayer chegou a hora de partir deste mundo. Ele nasceu, há quase um século, na minha própria terra, precisamente em Altötting, onde fica o célebre Santuário mariano a que estão ligados tantos afetos e memórias de nós da Baviera. Assim é o destino da existência humana: floresce na terra - em um ponto preciso do mundo - e é chamada ao Céu, à pátria de que misteriosamente provém. "Desiderat anima mea ad te, Deus" [Minha alma deseja a ti, Deus] (Salmo 41/42, 2). Nesse verbo "desiderat" está todo o homem, o seu ser carne e espírito, terra e céu. É o mistério original da imagem de Deus no homem. O jovem Paul - que, depois de monge, se chamará Augustin Mayer - estudou esse tema nos escritos de Clemente Alexandrino para o seu doutoramento em teologia. É o mistério da vida eterna, depositada em nós como uma semente a partir do Batismo, e que pede para ser aceita ao longo do percurso da nossa vida, até o dia em que o espírito volta a Deus Pai.


"Pater, in manus tuas commendo spiritum meum" [Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito] (Lc 23 46). As últimas palavras de Jesus na cruz guiam-nos na oração e na meditação, enquanto nos reunimos em torno do altar para dar o último adeus a nosso saudoso Irmão. Toda a nossa celebração exequial se realiza sob o signo da esperança: no último suspiro de Jesus na cruz (cf. Lc 23 46, Jo 19, 30), Deus doa-se inteiramente à humanidade, preenchendo a lacuna aberta pelo pecado e restaurando a vitória da vida sobre a morte. Por isso, cada homem que morre no Senhor participa pela fé deste ato de amor infinito, em que, de alguma forma, entrega o espírito juntamente com Cristo, na segura esperança de que a mão do Pai o ressuscitará dos mortos e o introduzirá no Reino da vida.


"A esperança não decepciona - afirma o apóstolo Paulo escrevendo aos cristãos de Roma -, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado" (Rm 5, 5). A grande e infalível esperança, fundada sobre a rocha sólida do amor de Deus, nos assegura que a vida daqueles que morrem em Cristo "não é tirada, mas transformada"; e que "enquanto se destrói a casa deste exílio terreno, é preparada uma habitação eterna no céu" (Prefácio dos Defuntos I). Em uma época como a nossa, em que o medo da morte coloca muitas pessoas no desespero e na busca de consolações ilusórias, o cristão distingue-se pelo fato de que coloca a sua segurança em Deus, em um Amor tão grande que pode renovar o mundo inteiro. "Eis que faço novas todas as coisas" (Ap 21, 5), declara - rumo ao final do livro do Apocalipse - Aquele sentado no trono. A visão da nova Jerusalém exprime a realização do desejo mais profundo da humanidade: aquele de viver juntos na paz, sem mais a ameaça da morte, mas desfrutando da plena comunhão com Deus e entre nós. A Igreja e, em particular, a comunidade monástica, constituem uma prefiguração sobre a terra desta meta final. É uma antecipação imperfeita, marcada por limites e pecados, e, portanto, sempre necessitada de conversão e purificação; e, todavia, na comunidade eucarística se prenuncia a vitória do amor de Cristo sobre aquilo que divide e mortifica. "Congregavit nos in unum Christi amor" - "O amor de Cristo nos congrega": esse é o lema episcopal do nosso venerado Irmão que nos deixou. Como filho de São Bento, experimentou a promessa do Senhor: "O vencedor herdará tudo isso; / e eu serei seu Deus, e ele será meu filho" (Ap 21, 7).


Formado na escola dos Padres Beneditinos da Abadia de São Miguel em Metten, em 1931 fez a profissão monástica. Por toda a sua existência, buscou realizar aquilo que São Bento diz na regra: "Nada se interponha ao amor de Cristo". Após os estudos em Salisburgo e Roma, começou uma longa e valorosa atividade de ensino no Pontifício Ateneu Santo Anselmo, onde se tornou reitor em 1949, posição que ocupou durante 17 anos. Exatamente naquele período era fundado o Pontifício Instituto Litúrgico, que se tornou um ponto de referência fundamental para a preparação de formadores no campo da Liturgia. Eleito, após o Concílio, Abade de sua amada Abadia de Metten, ocupou tal cargo por cinco anos, mas já em 1972 o Servo de Deus Papa Paulo VI nomeou-o secretário da Congregação para os Religiosos e Institutos Seculares e quis pessoalmente sagrá-lo Bispo em 13 de fevereiro de 1972.


Durante os anos de serviço nesse Dicastério, promoveu a aplicação gradual das disposições do Concílio Vaticano II no que diz respeito às famílias religiosas. Nesse âmbito particular, na sua qualidade de religioso, foi capaz de demonstrar uma forte sensibilidade humana e eclesial. Em 1984, o Venerável João Paulo II confiou-lhe o encargo de prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, criando-o pois Cardeal no Consistório de 25 de Maio de 1985 e assinalando-lhe o título de Santo Anselmo no Aventino. Em seguida, nomeou-o primeiro presidente da Pontifícia Comissão "Ecclesia Dei"; e também nessa nova e delicada tarefa o Cardeal Mayer confirmou-se zeloso e fiel servo, buscando aplicar o conteúdo de seu lema: "O amor de Cristo nos congrega".


Queridos irmãos, a nossa vida está, a cada instante, nas mãos do Senhor, sobretudo no momento da morte. Por isso, com a confiante invocação de Jesus na cruz: "Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito", desejamos acompanhar o nosso Irmão Paul Augustin, enquanto cumpre a sua passagem deste mundo para o Pai. Neste momento, meu pensamento não pode deixar de ir para o Santuário da Mãe das graças de Altötting. Espiritualmente voltados àquele lugar de peregrinação, confiamos à Virgem Santa a nossa oração de sufrágio pelo falecido Cardeal Mayer. Ele nasceu próximo àquele santuário, conformou a sua vida a Cristo segundo a Regra beneditina, e morreu à sombra desta Basílica Vaticana. Nossa Senhora, São Pedro e São Bento acompanhem este fiel discípulo do Senhor no seu Reino de luz e de paz. Amém.


quarta-feira, 21 de abril de 2010

Íntegra: Palavras de Bento XVI nas exéquias do Cardeal Špidlík

vatican.va

Venerados Irmãos,
ilustres Senhoras e Senhores,
queridos irmãos e irmãs!

Entre as últimas palavras proferidas pelo saudoso Cardeal Špidlík encontram-se estas: "Durante toda a minha vida procurei o rosto de Jesus, e agora estou feliz e sereno porque estou a caminho de vê-lo". Este pensamento maravilhoso - tão simples, quase infantil na sua expressão, mas tão profundo e verdadeiro - remete imediatamente à oração de Jesus, que ressoou a pouco no início do Evangelho: "Pai, quero que, onde eu estou, estejam comigo aqueles que me deste, para que vejam a minha glória que me concedeste, porque me amaste antes da criação do mundo" (Jo 17, 24). É bonito e reconfortante meditar esta correspondência entre o desejo do homem, que aspira a ver o rosto do Senhor, e o desejo do próprio Jesus. Na realidade, aquela de Cristo é bem mais do que uma aspiração: é uma vontade. Jesus diz ao Pai: "quero que, onde eu estou, estejam comigo aqueles que me deste". É precisamente aqui, nesta vontade, que encontramos a "rocha", o fundamento sólido para crer e esperar. A vontade de Jesus, de fato, coincide com aquela de Deus Pai, e com a obra do Espírito Santo constitui para o homem uma espécie de "abraço" seguro, forte e doce, que o conduz à vida eterna.

Que imenso dom escutar essa vontade de Deus da sua própria boca! penso que os grandes homens de fé vivem imersos nesta graça, têm o dom de perceber com particular força essa verdade, e, assim, podem atravessar também duras provas, como as atravessou o Padre Tomáš Špidlík, sem perder a confiança, e conservando também um vivo senso de humor, que é certamente um sinal de inteligência, mas também de liberdade interior. Sobre esta questão, era evidente a semelhança entre o nosso saudoso Cardeal e o Venerável João Paulo II: ambos eram levados para o espirituoso e o divertido, mesmo tento tido, na juventude, vivências pessoais difíceis e, em certos aspectos, similares. A Providência os fez encontrar e colaborar para o bem da Igreja, especialmente para que ela aprendesse a respirar plenamente "com os seus dois pulmões", como amava dizer o Papa eslavo.

Essa liberdade e presença de espírito tem o seu fundamento objetivo na Ressurreição de Cristo. Apraz-me sublinhá-lo, porque nos encontramos no tempo litúrgico pascal e porque o sugerem a primeira e a segunda leitura bíblica desta celebração. Em seu primeiro sermão, no dia de Pentecostes, São Pedro, cheio do Espírito Santo, anuncia o cumprimento em Jesus Cristo do Salmo 16. É incrível perceber como o Espírito Santo revela aos Apóstolos toda a beleza daquelas palavras na plena luz interior da Ressurreição: "Contemplo o Senhor diante de mim, / ele está à minha direita, para que eu não vacile. / Por isso se alegra o meu coração e exulta a minha língua, / e também a minha carne repousará na esperança" (At 2, 25-26; Sl 16/15, 8-9). Esta oração encontra um cumprimento superabundante quando Cristo, o Santo de Deus, não é abandonado nos infernos. Ele conheceu por primeiro "os caminhos da vida" e foi cheio de alegria na presença do Pai (cf. At 2, 27-28; Sl 16/15, 11). A esperança e a alegria de Cristo Ressuscitado são também a esperança e a alegria de seus amigos, graças à ação do Espírito Santo. O demonstrava habitualmente Padre Špidlík com o seu modo de viver, e este seu testemunho tornava-se sempre mais eloquente com o passar dos anos, porque, apesar de sua idade avançada e as fraquezas inevitáveis, o seu espírito permanecia fresco e jovial. O que é isso se não amizade com o Senhor ressuscitado?

Na segunda leitura, São Pedro bendiz Deus que "na sua grande misericórdia nos regenerou, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma esperança viva". Ele acrescenta: "Por isso, sede cheios de alegria, também se deveis ser, por algum tempo, afligidos de várias provas" (1 Pd 1, 3.6). Também aqui emerge claramente como a esperança e a alegria são realidades teologais que emanam do mistério da Ressurreição de Cristo e do dom do seu Espírito. Poderíamos dizer que o Espírito Santo as colocou no coração do Cristo Ressuscitado e as infunde nos corações de seus amigos.

Deliberadamente introduzi a imagem do "coração", porque, como muitos de vós sabeis, Padre Špidlík a escolheu como o mote de seu brasão cardinalício: "Ex todo corde", "com todo o meu coração". Essa expressão está no livro de Deuteronômio, no primeiro e fundamental mandamento da lei, lá onde Moisés diz ao povo: "Ouve, ó Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças" (Dt 6, 4-5). "Com todo o coração - ex toto corde" refere-se, portanto, à maneira pela qual Israel deve amar o seu Deus. Jesus confirma o primado deste mandamento, ao qual combina o amor ao próximo, afirmando que esse é "similar" ao primeiro, e que de ambos depende toda a lei e os profetas (cf. Mt 22, 37-39). Ao escolher esse lema, o nosso venerado irmão colocava, por assim dizer, a sua vida dentro do mandamento do amor, a inscrevia toda no primado de Deus e do amor.

Há um outro aspecto, um significado ulterior da expressão "ex toto corde", que seguramente Padre Špidlík tinha presente e queria manifestar com seu lema. Sempre a partir de raízes bíblicas, o símbolo do coração representa, na espiritualidade oriental, a sede da oração, do encontro entre Deus e o homem, mas também com os outros homens e com o cosmos. E aqui é preciso recordar que no brasão do Cardeal Špidlík o coração, que está no escudo, contém uma cruz em cujos braços se cruzam as palavras PHOS e ZOE, "Luz" e "Vida", que são nomes de Deus. Então, o homem que acolhe plenamente, "ex toto corde", o amor de Deus, recebe a luz e a vida e, por sua vez, torna-se luz e vida no universo e na humanidade.

Mas quem é este homem? Quem é este "coração" do mundo, se não Jesus Cristo? É Ele a Luz e a Vida, porque "habita corporalmente toda a plenitude da Divindade" (Col 2, 9). E aqui apraz-me recordar que o nosso defunto Irmão foi um membro da Companhia de Jesus, isto é, filho espiritual daquele Santo Inácio que coloca ao centro da fé e da espiritualidade a contemplação de Deus no mistério de Cristo. Neste símbolo do coração encontram-se o Oriente e o Ocidente, em um sentido não devocionístico, mas profundamente cristológico, como o realçaram outros teólogos jesuítas do século passado. E Cristo, figura central da Revelação, é também o princípio formal da arte cristã, uma área que tinha no Padre Špidlík um grande mestre, inspirador de ideias e projetos expressivos, que encontraram uma síntese importante na Capela Redemptoris Mater, no Palácio Apostólico.

Desejo concluir retornando ao tema da Ressurreição, citando um texto muito amado pelo Cardeal Špidlík, uma passagem dos Hinos sobre a Ressurreição de santo Éfrem, o Sírio:

"Do alto Ele desceu como Senhor
do ventre surgiu como um servo,
a morte ajoelhou-se diante dele no inferno,
e a vida o adorou na sua ressurreição.
Bendita a sua vitória" (n. 1, 8). ù.

A Virgem Mãe de Deus acompanha a alma do nosso venerado Irmão no abraço da Santíssima Trindade, onde "com todo o coração" louvará eternamente o seu infinito Amor. Amém.

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