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terça-feira, 8 de junho de 2010

Para não quebrar a louça

Dentro da nossa Igreja sempre tivemos assuntos “perigosos”, nos quais basta deslocar as afirmações um pouco para um lado, ou para o outro, e a confusão está feita. Olhemos, por exemplo, para os assuntos essenciais da Trindade ou da Cristologia, buscados nos albores da Igreja. Pequenos desfoques de perfil, e o alvoroço campeava. Não queremos ser do número daqueles que acham que isso são filigranas insignificantes Vejamos, como ilustração, que isso é deveras importante. Se alguém crê que a Sagrada Escritura é inspirada por Deus, e outro nega, não existe possibilidade de essas duas pessoas viverem na harmonia da fé, na mesma comunidade. Desde cedo entre os cristãos houve aquele que estabelecia a unidade de todos. “Confirma os teus irmãos na fé” (Lc 22, 32). A Igreja também sempre definiu, com honestidade e clareza, se alguém - por motivos de rejeitar verdades estabelecidas - ainda continua fazendo parte da comunidade católica. Isso prossegue válido também hoje.

Um dos assuntos “perigosos” atualmente, é o ecumenismo. No afã de dar passos largos nessa paisagem, há pessoas que abrem mão de verdades fundamentais. Tanto de um lado como de outro. Tive ocasião de participar de um desses estudos, num congraçamento católico. Fiquei abismado com a frivolidade com que se acusava a Igreja. Havia espíritos “largos” e “abertos” que depositavam sobre os ombros da Mãe Igreja, as vestes mais rasgadas da infidelidade e do ódio. E mais do que isso. Consideravam todas as religiões cristãs igualmente verdadeiras, havendo apenas diferenças de acentuação. Ora, isso vai contra a nossa profissão de fé, onde declaramos solenemente: “eu creio na Igreja una”. Ela é única. Isso é até uma condição para entabolar diálogos ecumênicos: crer na veracidade da sua Igreja. Quem nisso não crê, faz uma conversa hipócrita. É verdade, temos muito a aprender de alguns de nossos irmãos separados. Não os convidamos a fazerem parte da nossa comunidade, a menos que eles espontaneamente o queiram. Respeitamo-los muito. Mas arrojos ecumênicos devem ser mantidos dentro dos ensinamentos do Concílio. Assim iremos mais longe, até atingir o que Cristo quer de nós. “Para que todos sejam um” (Jo 17, 11).

Dom Aloísio Roque Oppermann

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Mantenhamos o Espírito na realidade

A humanidade deu mais um passo para o futuro. Neste mês de maio/2010 a equipe de Craig Venter deu publicidade a um trabalho científico, pelo qual conseguiu elaborar a primeira bactéria capaz de viver com um DNA montado em laboratório. Foi um passo notável para a insaciável mente humana, em busca permanente dos “porquês” e dos “comos”. Passados os primeiros momentos de estupor, já é possível fazer uma avaliação mais realista.

  1. Trata-se de uma façanha da inteligência humana, cumprindo o imenso desafio do Gênesis: “Dominai a terra” (Gen 1, 28). Portanto, nada a temer. A humanidade está fazendo a lição de casa.
  2. O cientista chefe não é nenhum desconhecido no mundo da ciência. Quando da decifração do genoma humano, com uma verba dez vezes menor, em caráter não-oficial, conseguiu bater a equipe do governo, chegando aos resultados esperados bem antes.
  3. Quem achava que os americanos estavam saindo da cena científica, devido à crise econômica, precisam rever seus conceitos. Temos aqui um novo candidato ao prêmio Nobel. (No Brasil, em um dia qualquer, ainda vamos ter esse prêmio).
  4. O fabuloso feito, contudo, não chega a criar vida a partir dos seres inanimados. Aproveita-se de uma bactéria pré-existente, na qual se substituiu o DNA original, por um que foi planejado em laboratório. É o aperfeiçoamento, em outra dimensão – numa comparação pobre – do enxerto. Numa cepa de laranjeira silvestre (cavalo), se pode sobrepor uma segunda espécie de laranja, cujo resultado será da qualidade desejada pelo ser humano.
  5. A experiência assim mesmo é fantástica, pois admite bilhões de possibilidades. Desde os usos mais nobres, até a síntese de bactérias da maldade. Pode virar uma guerra, ou pode virar a salvação da vida humana. Espero que se faça uma nova declaração da ONU, sobre os Direitos Humanos. Desta vez encarando os limites das experiências científicas.
  6. Não sei se um dia a ciência terá o poder de “criar” vida, e imitar o Onipotente. O fato é que antes disso precisa pelo menos desvendar o que é a matéria escura, e como curar a calvície.

Dom Aloísio Roque Oppermann

terça-feira, 18 de maio de 2010

O Alimento Duas Vezes Distribuídos

O pensador espanhol Unamuno - que nem sempre sabia se ele próprio era socialista, católico, protestante ou agnóstico – teve uma afirmação genial. Ao ler os conteúdos teológicos da Eucaristia, concluiu que se ela não existisse, deveríamos inventá-la. Tal é sua sublimidade e genialidade. De fato, ela é o “pão da unidade”, como nos demonstra o Congresso Eucarístico de Brasília. Distingue-se admiravelmente de todos os outros alimentos. Se alguém se alimenta de arroz, seus nutrientes são assimilados pelo organismo de quem se alimenta. É como dizia o excelente teólogo alemão, Wilfried Hagemann, essa comida se transforma em Hagemann. Os biólogos gostam de chamar a esse processo de intussuscepção (incorporação). Mas já Santo Agostinho nos advertia que, ao comermos o pão eucarístico, nós nos transformamos em Cristo. Isso é, acontece o contrário. O comungante é incorporado na pessoa divina de Jesus. O Mestre, sem rodeios, dizia: “Quem comer deste pão viverá eternamente” (Jo 6, 51). Somos assimilados na herança do Salvador.

O grandioso da Eucaristia não termina aqui. A partir do momento em que somos sempre mais identificados com Cristo, começa outro capítulo. Agora é que se entra nas finalidades derradeiras do sacramento. Eu posso me alimentar do “verdadeiro pão do céu” (Jo 6, 32), para ter um momento íntimo com meu Mestre. É tão bonito esse momento, que ninguém deveria tirar fotografia nossa, enquanto estamos adorando o Senhor. Seria devassar a intimidade, enquanto fazemos nossos pedidos, adorando-o, e lhe agradecendo. Também esse é o momento para nos sentirmos Igreja, relacionados com nossos irmãos, nossa comunidade. Isso fez Santo Tomás dizer que esta é uma das grandes finalidades do “sublime sacramento”. Mas existe um outro grande tesouro, muito escondido. O comungante, a partir deste momento, pode se tornar “pão da vida” (Jo 6, 35) para os outros. Pela prática da caridade, ele alimenta a unidade entre as demais pessoas do mundo. Mesmo que os outros não recebam o corpo do Senhor, recebem esse alimento pela nossa bondade. Esta é a segunda distribuição do Corpo de Cristo. Realiza-se o que o Senhor previu: “Hoje a salvação entrou nesta casa” (Lc 19, 9).

Dom Aloísio Roque Oppermann

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