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sexta-feira, 28 de maio de 2010

Discurso do Papa ao Pontifício Conselho para os Migrantes

Bollettino della Sala Stampa della Santa Sede

Senhores Cardeais,
venerados Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio,
queridos irmãos e irmãs!

Com grande alegria vos acolho por ocasião da Sessão Plenária do Pontifício Conselho para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes. Saúdo o presidente do Dicastério, Dom Antonio Maria Vegliò, a quem agradeço pelas palavras de grata cordialidade, o Secretário, os Membros, os Consultores e os Oficiais. A todos desejo um trabalho frutífero.

Tendes escolhido como tema para esta Sessão aquele da Pastoral da mobilidade humana hoje, no contexto da corresponsabilidade dos Estados e dos Organismos Internacionais. A circulação das pessoas tem sido objeto de convenções internacionais, que buscam garantir a proteção dos direitos humanos fundamentais e combater a discriminação, a xenofobia e a intolerância. Trata-se de documentos que estabelecem os princípios e técnicas de proteção supranacional.

É apreciável o esforço para construir um sistema de regras comuns que contemplem os direitos e deveres do estrangeiro, bem como aqueles das comunidades de acolhimento, tendo em conta, em primeiro lugar, a dignidade de cada pessoa humana, criada por Deus à sua imagem e semelhança (cf. Gn 1, 26). Obviamente, a aquisição de direitos anda de mãos dadas com a aceitação dos deveres. Todos, na verdade, gozam de direitos e deveres não arbitrários, porque brotam da própria natureza humana, como afirma a Encíclica Pacem in Terris, do Beato Papa João XXIII: "Todo o ser humano é pessoa, isto é, uma natureza dotada de inteligência e livre arbítrio; e, portanto, sujeito de direitos e deveres que emanam imediata e simultaneamente da sua própria natureza: direitos e deveres que são, por isso, universais, invioláveis e inalienáveis" (n. 5). A responsabilidade dos Estados e Organismos Internacionais, portanto, explica-se principalmente no compromisso de influenciar as questões que, ressalvadas as competências dos legisladores nacionais, envolvem toda a família dos povos, e exigem uma consulta entre os Governos e os Organismos diretamente interessados. Penso nas problemáticas como o ingresso ou expulsão forçada para o estrangeiro, a usabilidade dos bens da natureza, da cultura e da arte, da ciência e da técnica, que a todos devem estar acessíveis. Não se deve esquecer o importante papel de mediação, a fim de que as resoluções nacionais e internacionais, que promovem o bem comum universal, encontrem acolhimento pelas instâncias locais e repercutam na vida cotidiana.

Nesse contexto, as legislações a nível nacional e internacional que promovam o bem comum e o respeito pela pessoa encorajam a esperança e os esforços para alcançar uma ordem social baseada na paz, fraternidade e cooperação de todos, não obstante a fase crítica que as instituições internacionais estão atravessando, empenhadas em resolver as questões cruciais de segurança e desenvolvimento para o benefício de todos. É verdade que, infelizmente, assistimos ao ressurgimento de demandas particularistas em algumas áreas do mundo, mas também é verdade que assim estamos fugindo de assumir responsabilidades que deveriam ser compartilhadas. Além disso, ainda não se tornou profundo o desejo em muitos de quebrar os muros que dividem e estabelecer acordos globais, também mediante disposições legislativas e práticas administrativas que favoreçam a integração, o intercâmbio e enriquecimento recíproco. Com efeito, perspectivas de convivência pacífica entre os povos podem ser oferecidas através de orientações concertadas e prudentes para o acolhimento e integração, permitindo oportunidades de ingresso na legalidade, favorecendo o justo direito ao reagrupamento familiar, ao asilo e ao refúgio, compensando as necessárias medidas restritivas e contrastando o desprezível tráfico de pessoas. Exatamente aqui as diversas organizações de caráter internacional, em cooperação entre si e com os Estados, podem fornecer sua contribuição peculiar através do conciliar, de várias maneiras, o reconhecimento dos direitos da pessoa e o princípio da soberania nacional, com específica referência às exigências de segurança, ordem pública e controle das fronteiras.

Os direitos fundamentais da pessoa humana podem ser o ponto focal do compromisso de corresponsabilidade das instituições nacionais e internacionais. Isso, portanto, está intimamente relacionado com a "abertura à vida, que está no centro do verdadeiro desenvolvimento", como enfatizei na Encíclica Caritas in veritate (cf. n. 28), onde também fiz um apelo aos Estados a fim de que promovam políticas em favor da centralidade e integridade da família (cf. ibid., 44). Por outro lado, é evidente que a abertura à vida e os direitos da família devem ser repetidos nos diversos contextos, pois "numa sociedade em via de globalização, o bem comum e o compromisso de obtê-lo não podem assumir as dimensões da família humana inteira, ou seja, a comunidade dos povos e Nações" (ibid., 7). O futuro da nossa sociedade repousa sobre o encontro entre os povos, sobre o diálogo entre culturas no respeito da identidade e das legítimas diferenças. Neste cenário, a família mantém o seu papel fundamental. Por isso a Igreja, com o anúncio do Evangelho de Cristo em todo o setor da existência, leva adiante o "compromisso [...] de favorecer não somente o indivíduo migrante, mas também a sua família, lugar e recurso da cultura da vida e fator de integração de valores", como reiterei na Mensagem para o Dia Mundial dos Migrantes e Refugiados do ano de 2006.

Queridos irmãos e irmãs, cabe também a vós aumentar a conscientização acerca de formas de corresponsabilidade nas organizações que se dedicam ao mundo dos migrantes e itinerantes. Este setor pastoral está ligado a um fenômeno em contínua expansão e, portanto, o vosso papel deverá traduzir-se em respostas concretas de proximidade e acompanhamento pastoral das pessoas, tendo em conta as diferentes situações locais. Sobre cada um de vós invoco a luz do Espírito Santo e a proteção maternal de Nossa Senhora, renovando os meus agradecimentos pelo serviço que prestais à Igreja e à sociedade. A inspiração do Beato João Batista Scalabrini, chamado de "Pai dos migrantes" pelo Venerável João Paulo II e do qual recordamos os 105 anos de nascimento ao céu no próximo 1º de Junho, ilumine a vossa ação em favor dos migrantes e itinerantes e vos estimule a uma caridade cada vez mais atenta, que testemunhe o próprio amor infalível de Deus. De minha parte, asseguro-vos a oração, enquanto de coração vos abençoo.


domingo, 9 de maio de 2010

Discurso de Bento XVI aos Bispos da Bélgica


Bollettino della Sala Stampa della Santa Sede

Queridos Irmãos no Episcopado,

estou feliz de vos desejar uma calorosa boas-vindas por ocasião de vossa visita ad Limina, que vos conduz em peregrinação ao túmulo dos Apóstolos Pedro e Paulo. Essa visita é um sinal da comunhão eclesial que une a comunidade católica da Bélgica à Santa Sé. Essa também é uma feliz ocasião para reforçar a comunhão de escuta recíproca, na oração comum e na caridade de Cristo, especialmente nestes momentos em que vossa própria Igreja é provada pelo pecado. Agradeço de coração a Dom André-Joseph Léonard pelas palavras que me dirigiu em vosso nome e de todas as vossas comunidades diocesanas. Apraz-me dirigir um pensamento particular para o Cardeal Godfried Danneels, que, durante mais de trinta anos, conduziu a Arquidiocese de Malines-Bruxelas e vossa Conferência Episcopal.

Após ler os vossos relatórios sobre o estado das vossas respectivas Dioceses, eu pude mensurar as transformações que estão acontecendo na sociedade belga. São tendências comuns a muitos países europeus, mas que, em vossa terra, possui características próprias. Algumas delas, já reveladas na visita ad Limina anterior, acentuaram-se. Refiro-me à diminuição do número de pessoas batizadas que mostram abertamente sua fé e sua pertença à Igreja, o aumento progressivo da idade média dos padres, religiosos e religiosas, à insuficiência no número de pessoas ordenadas ou consagradas engajadas na pastoral ativa ou nos campos educacional e social, ao pequeno número de candidatos ao sacerdócio e à vida consagrada. A formação cristã, em especial das gerações mais jovens, nas questões relativas ao respeito à vida e à instituição do matrimônio e da família constituem outras questões sensíveis. Nós podemos ainda mencionar as situações complexas e muitas vezes perturbadoras relacionadas à crise econômica, ao desemprego, à integração social dos imigrantes, a uma coexistência pacífica das várias comunidades linguísticas e culturais da Nação.

Tenho observado o quanto vós sois conscientes de tais situações e da importância de enfatizar uma formação religiosa mais sólida e mais profunda. Tomei conhecimento de vossa Carta pastoral, La Belle Profession de Foi (A bela profissão de fé), inscrita na coleção Crescer na fé. Através desta carta, vós desejais incentivar todos os fiéis a redescobrir a beleza da fé cristã. Graças à oração e à reflexão em comum no que diz respeito às verdades reveladas expressa pelo Credo, redescobrimos que a fé não consiste unicamente em aceitar um conjunto de verdades e valores, mas antes em confiar em Alguém, em Deus, a escutá-Lo, a amar, e a falar com Ele, enfim, comprometer-se a seu serviço (cf. p. 5).

Um evento significativo, para hoje e amanhã, foi a canonização do Padre Damien De Veuster. O novo santo fala à consciência dos belgas. Caso contrário, seria designado pelos filhos da nação como o mais ilustre de todos os tempos? Sua grandeza, vivida no dom total de si mesmo a seus irmãos, os leprosos, a ponto de ser contaminado e morrer, reside na sua riqueza interior, em sua oração constante, na sua união ao Cristo que ele via em seus irmãos e que, como ele, entregou-se sem reservas. Neste Ano Sacerdotal, ele é um bom exemplo de entrega sacerdotal e missionária, especialmente aos sacerdotes e religiosos. A diminuição do número de sacerdotes não deve ser vista como um processo inevitável. O Concílio Vaticano II afirmou com força que a Igreja não pode prescindir do ministério dos sacerdotes. É, portanto, necessário e urgente dar-lhes o seu lugar de direito e reconhecer o seu caráter sacramental insubstituível. Daqui resulta, portanto, a necessidade de uma ampla e séria pastoral vocacional, baseada na santidade exemplar de sacerdotes, na atenção aos gérmens de vocação presentes em muitos jovens e na oração assídua e confiante, conforme a recomendação de Jesus (cf. Mt 9, 37).

Dirijo uma saudação cordial a todos os padres e pessoas consagradas, muitas vezes sobrecarregados de trabalho e desejosos do apoio e amizade de seu Bispo e seus confrades, sem esquecer dos sacerdotes em idade mais avançada que dedicaram suas vidas ao serviço de Deus e dos irmãos. Eu também não esqueço de todos os missionários. Que todos - sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos da Bélgica - recebam o meu incentivo e a expressão de minha gratidão e não esqueçam jamais que é o Cristo quem acalma qualquer tempestade (cf. Mt 8, 25-26) e restaura a força e a coragem (cf. Mt 11, 28-30 e Mt 14, 30-32) para levar uma vida santa, na plena fidelidade ao vosso próprio ministério, à própria consagração a Deus e ao testemunho cristão.

A Constituição Sacrosanctum Concilium sublinha que é na liturgia que se manifesta o mistério da Igreja, a sua grandeza e simplicidade (cf. n. 2). É importante que os padres cuidem das celebrações litúrgicas, especialmente da Eucaristia, que permitam uma profunda comunhão com o Deus vivo, Pai, Filho e Espírito Santo. É necessário que as celebrações aconteçam a partir do respeito à tradição litúrgica da Igreja, com uma participação ativa dos fiéis, segundo o papel que corresponde a cada um deles, unindo-se ao mistério pascal de Cristo.

Em vossos relatórios, vós vos mostrais atentos à formação dos leigos, através de uma inserção a cada dia mais efetiva na animação das realidades temporais. Esse é um programa louvável, que nasce da vocação de todo o batizado configurado ao Cristo sacerdote, profeta e rei. É bom discernir todas as possibilidades que emanam da comum vocação dos leigos à santidade e ao compromisso apostólico, no que diz respeito à distinção essencial entre o sacerdócio ministerial e o sacerdócio comum dos fiéis. Todos os membros da Comunidade católica, mas de uma forma especial os fiéis leigos, são chamados a testemunhar abertamente sua fé e ser fermento na sociedade, respeitando uma sã laicidade das instituições públicas e das outras confissões religiosas. Tal testemunho não pode ser limitado somente ao âmbito pessoal, mas deve também assumir as características de uma proposta pública, respeitosa mas legítima, de valores inspirados pela mensagem do Evangelho de Cristo.

A brevidade desse encontro não me permite desenvolver outros temas que são queridos para mim e que vós também mencionais em vossos relatórios. Termino pedindo-vos a amabilidade de transmitir às vossas Comunidades, padres, religiosos, religiosas e a todos os católicos da Bélgica minha afetuosa saudação, assegurando-vos as minhas orações por eles diante do Senhor. Que a Virgem Maria, venerada em tantos santuários da Bélgica, vos ajude em vosso ministério e vos proteja sob sua ternura maternal. A vós e a todos os católicos da Bélgica, ofereço de todo o meu coração a Bênção Apostólica.

sábado, 1 de maio de 2010

Discurso de Bento XVI à Pontifícia Academia das Ciências Sociais

Bollettino della Sala Stampa della Santa Sede

Queridos membros da Academia,


apraz-me cumprimentar-vos no início de vossa XVI Sessão Plenária, que é dedicada a uma análise da crise econômica global à luz dos princípios éticos consagrados na Doutrina Social da Igreja. Agradeço a vossa presidenta, professora Mary Ann Glendon, por suas corteses palavras de saudação e ofereço-vos meus sinceros bons votos para a fecundidade de suas deliberações.


A quebra do sistema financeiro mundial, como sabemos, demonstrou a fragilidade do atual sistema econômico e das instituições a ele ligados. Isso também mostrou o erro do pressuposto de que o mercado é capaz de autorregular-se, para além da intervenção pública e o apoio de padrões morais internalizados. Tal suposição é baseada em uma noção empobrecida da vida econômica como uma espécie de mecanismo de auto-calibração conduzido por interesses próprios e fins lucrativos. Dessa forma, negligencia a natureza essencialmente ética da economia como uma atividade de e para os seres humanos. Mais que uma espiral de produção e consumo, em vista de necessidades humanas estritamente definidas, a vida econômica deve ser corretamente vista como um exercício de responsabilidade humana, intrinsecamente orientada para a promoção da dignidade da pessoa, a busca do bem comum e do desenvolvimento integral - político, cultural e espiritual - dos indivíduos, famílias e sociedades. Uma apreciação desta dimensão humana exige, por sua vez, precisamente o tipo de investigação interdisciplinar e reflexão com que a presente sessão da Academia se compromete.


Na minha Encíclica Caritas in Veritate, observei que "a crise atual obriga-nos a projetar de novo o nosso caminho, a impor-nos regras novas e encontrar novas formas de compromisso" (n. 21). Replanejar o caminho, é claro, também significa olhar para os padrões compreensivos e objetivos que permitem avaliar as estruturas, instituições e decisões concretas que guiam e direcionam a vida econômica. A Igreja, baseada em sua fé em Deus o Criador, afirma a existência de uma lei universal natural que é a fonte última desses critérios (cf. Caritas in Veritate, 59). No entanto, ela também está convencido de que os princípios dessa ordem ética, inscrita na própria criação, são acessíveis à razão humana e, como tal, devem ser adotados como base para decisões práticas. Como parte do grande patrimônio da sabedoria humana, a lei moral natural, que a Igreja apropriou, purificada e desenvolvida à luz da revelação Cristã, serve como um farol guiando os esforços de indivíduos e comunidades para exercer o bem e evitar o mal, enquanto direcionam seus compromissos para construir autenticamente uma sociedade justa e humana.


Entre os princípios indispensáveis que moldam essa abordagem ética integral da vida econômica deve estar a promoção do bem comum, baseada no respeito pela dignidade da pessoa humana e reconhecê-la como o objetivo principal dos sistemas de produção e comércio, instituições políticas e bem-estar social. Em nossos dias, a preocupação com o bem comum tem assumido uma dimensão cada vez mais marcadamente global. Isso também tornou cada vez mais evidente que o bem comum envolve a responsabilidade perante as gerações futuras; a solidariedade intergeracional deve passar a ser reconhecida como um critério ético fundamental para julgar qualquer sistema social. Essas realidades apopntam para a urgência de reforçar os procedimentos de governança da economia global, embora com o devido respeito pelo princípio da subsidiariedade. No final, porém, todas as decisões econômicas e políticas devem ser orientadas para a "caridade na verdade", na medida em que a verdade preserva e canaliza o poder libertador da caridade em meio às sempre contingentes estruturas e acontecimentos humanos. Pois "sem verdade, sem confiança e amor pelo que é verdadeiro, não há consciência e responsabilidade social, e a ação social fica à mercê de interesses privados e lógicas de poder, com efeitos desagregadores na sociedade" (Caritas in Veritate, 5).


Com essas considerações, queridos amigos, novamente expresso minha confiança de que esta Sessão Plenária contribuirá para um discernimento mais profundo dos sérios desafios sociais e econômicos que enfrenta o nosso mundo e ajudará a apontar o caminho a seguir para enfrentar esses desafios em um espírito de sabedoria, justiça e autêntica humanidade. Garanto-vos mais uma vez as minhas orações por vosso importante trabalho, e sobre vós e seus entes queridos invoco cordialmente as Bênçãos divinas de alegria e paz.


quinta-feira, 29 de abril de 2010

Discurso de Bento XVI a membros do Comitê Vox Clara

Bollettino della Sala Stampa della Santa Sede

Queridos Cardeais,
Queridos Irmãos Bispos e Sacerdotes,
Membros e Consultores do Comitê Vox Clara,


agradeço-vos pelo trabalho que Vox Clara tem feito ao longo dos últimos oito anos, auxiliando e aconselhando a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos no cumprimento de suas responsabilidades no que diz respeito às traduções dos textos litúrgicos para o inglês. Esse tem sido um empreendimento verdadeiramente colegial. Não apenas estão todos os cinco continentes representados entre os membros da Comissão, mas vós tendes sido assíduos em reunir contribuições das Conferências Episcopais de territórios de língua inglesa ao redor do mundo. Agradeço-vos pelo grande trabalho que vós tendes expendido no estudo das traduções e no processamento dos resultados das muitas consultas que têm sido realizadas. Agradeço aos peritos assistentes por oferecer os frutos de seu conhecimento a fim de prestar um serviço à Igreja universal. E eu agradeço aos Superiores e Oficiais da Congregação pelo seu diário, árduo trabalho de supervisionar a preparação e tradução de textos que proclamam a verdade de nossa redenção em Cristo, o Verbo de Deus Encarnado.

Santo Agostinho falou belamente da relação entre João Batista, a vox clara que ressoou às margens do Jordão, e a Palavra que ele anunciava. Uma voz, disse ele, serve para partilhar com o ouvinte a mensagem que já está no coração de quem fala. Uma vez que a palavra foi dita, está presente nos corações de ambos, e assim a voz, sua tarefa se completa, e pode desaparecer (cf. Sermão 293). Congratulo-me com a notícia de que a tradução inglesa do Missal Romano em breve estará pronta para publicação, a fim de que os textos em que vós trabalhastes tão arduamente para preparar possam ser proclamados na liturgia que é celebrada em todo o mundo anglófono. Através desses textos sagrados e das ações que os acompanham, Cristo se faz presente e atuante no meio de seu povo. A voz que ajudou a fazer surgir essas palavras terá completado sua tarefa.

Uma nova tarefa será, então, apresentada, aquela que escapa da competência direta do Vox Clara, mas que, de uma forma ou de outra, envolverá a todos vós - a tarefa de preparação para a recepção da nova tradução pelo clero e fiéis leigos. Muitos encontrarão dificuldade para se ajustar a textos desconhecidos, após quase quarenta anos de uso contínuo da tradução anterior. A mudança terá de ser introduzida com a sensibilidade necessária, e a oportunidade para a catequese que se apresenta deverá ser agarrada com firmeza. Rezo para que, desta forma, qualquer risco de confusão ou desorientação seja evitado, e a mudança sirva como um trampolim para uma renovação e um aprofundamento da devoção Eucarística em todo o mundo de fala inglesa.

Queridos Irmãos Bispos, Reverendos Padres, Amigos, quero que vós saibais o quanto aprecio o grande esforço colaborativo com o qual vós contribuístes. Em breve, os frutos de vosso trabalho serão disponibilizados para congregações de fala inflesa em todos os lugares. Como as orações do povo de Deus sobem a ele como o incenso (cf. Salmo 140, 2), possa a bênção do Senhor descer sobre todos que tendes contribuído com o próprio tempo e conhecimentos para a elaboração de textos em que essas orações são expressos. Obrigado, e que vós possais ser abundantemente recompensados por vosso generoso serviço ao povo de Deus.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Discurso de Bento XVI aos jovens de Malta

Bollettino della Sala Stampa della Santa Sede

Żgħażagħ Maltin u Għawdxin, jien kuntent ħafna li ninsab maghkom,

[Queridos jovens de Malta e Gozo, estou muito feliz de estar entre vós,]


que alegria poder encontrar-vos em vossa terra. Neste significativo aniversário, damos graças a Deus por ter enviado o Apóstolo Paulo a estas ilhas, que é um dos primeiros lugares que recebeu a Boa Nova de nosso Senhor Jesus Cristo.


Saúdo cordialmente o Senhor Arcebispo Cremona e o Bispo Grech, a quem agradeço suas amáveis palavras, e a todos os bispos, sacerdotes e religiosos aqui presentes. Em particular, saúdo a vós, jovens de Malta e Gozo, e agradeço a confiança com que me haveis falado dos problemas que mais vos interessam. Aprecio o vosso desejo de buscar e encontrar a verdade, assim como o de saber o que deveis fazer para alcançar uma vida plena.


São Paulo, quando era jovem, teve uma experiência que transformou sua vida para sempre. Como sabeis, ele foi, antes, inimigo da Igreja e fez todo o possível para destruí-la. Enquanto ia a caminho de Damasco, com a intenção de capturar qualquer cristão que ali encontrasse, o Senhor lhe apareceu em uma visão. "Por que me persegues? [...] Sou Jesus, a quem tu persegues" (At 9, 4-5). Paulo viu-se totalmente preso por este encontro com o Senhor e toda a sua vida mudou. Ele converteu-se em um discípulo e chegou a ser um grande apóstolo e missionário. Aqui, em Malta, tendes um motivo particular para agradecer os esforços missionários de Paulo, que divulgou o Evangelho no Mediterrâneo.


Cada encontro pessoal com Jesus é uma experiência avassaladora de amor. Como o próprio Paulo admite, antes havia "perseguido cruelmente a Igreja de Deus e a assolava" (Gal 1, 13). No entanto, o ódio e a raiva expressos nessas palavras se desvaneceram completamente pelo poder do amor de Cristo. Durante o resto de sua vida, Paulo teve o desejo ardente de levar o anúncio desse amor até os confins da terra.


Quem sabe alguns de vós me direis que, às vezes, São Paulo foi severo em seus escritos. Como pode-se afirmar, então, que difundiu uma mensagem de amor? Minha resposta é esta: Deus ama cada um de nós com uma profundidade e intensidade que nem sequer podemos imaginar. Ele nos conhece intimamente, conhece cada uma das nossas capacidades e cada um de nossos erros. Posto que nos ama tanto, deseja purificar-nos de nossos erros e fortalecer nossas virtudes, de maneira que possamos ter vida em abundância. Ainda que nos chame a atenção quando há algo em nossa vida que lhe desegrada, Deus não nos rejeita; antes, nos pede para mudar e sermos mais perfeitos. Isso é o que pediu a São Paulo no caminho de Damasco. Deus não rejeita ninguém, e a Igreja tampouco rejeita ninguém. Mais ainda, em seu grande amor, Deus nos desafia a cada um para que mudemos e sejamos melhores.


São João nos diz que esse amor perfeito lança fora todo o temor (cf. 1 Jo 4, 18). Por isso, digo a todos vós: Não tenhais medo. Quantas vezes escutamos essas palavras nas Escrituras. O anjo lhas dirigiu a Maria na Anunciação; Jesus a Pedro, quando o chama a ser seu discípulo, e o anjo a Paulo, nas vésperas de seu naufrágio. Aos que desejam seguir a Cristo, seja como esposos, pais, sacerdotes, religiosos ou fiéis leigos, que levam a mensagem do Evangelho ao mundo, lhes digo: Não tenhais medo. Encontrareis, certamente, oposição à mensagem do Evangelho. A cultura de hoje, como qualquer cultura, promove ideias e valores que contrastam, por vezes, com aqueles que viveu e pregou nosso Senhor Jesus Cristo. Às vezes, essas ideias são apresentadas com um grande poder de persuasão, reforçadas pelos media e pelas pressões sociais de grupos hostis à fé cristã. Quando se é jovem e impressionável, é fácil sofrer a influência de outros para que aceitemos ideias e valores que sabemos não serem os que o Senhor quer realmente para nós. Por isso, repito: Não tenhais medo; antes, alegrai-vos do amor que Ele tem por vós; confiai-vos a Ele, respondei ao seu convite a ser seus discípulos, encontrai alimento e ajuda espiritual nos sacramentos da Igreja.


Aqui, em Malta, viveis em uma sociedade marcada pela fé e valores cristãos. Deveríeis estar orgulhosos de que vosso país defenda tanto ao nascituro como a estabilidade da vida familiar para uma sociedade saudável. Em Malta e Gozo, as famílias sabem valorizar e cuidar de seus membros idosos e doentes, e acolhem aos filhos como um dom de Deus. Outras nações podem aprender de vosso exemplo cristão. No contexto da sociedade europeia, os valores evangélicos estão chegando a ser de novo uma contracultura, como acontecia nos tempos de São Paulo.


Neste Ano Sacerdotal, peço-vos que estejais abertos à possibilidade de que o Senhor pode chamar alguns de vós a entregar-se totalmente ao serviço de seu povo no sacerdócio ou na vida consagrada. Vosso país tem dado muitos e excelentes sacerdotes e religiosos à Igreja. Inspirai-vos em seu exemplo e reconhecei a profunda alegria que provém de dedicar a própria vida ao anúncio da mensagem do amor de Deus por todos, sem exceção.


Vos falei da necessidade de cuidar dos mais jovens, dos idosos e enfermos. No entanto, o cristão é chamado a levar a mensagem do Evangelho a todos. Deus ama a cada pessoa deste mundo, mais ainda, ama a cada pessoa de todas as épocas da história do mundo. Na morte e ressurreição de Jesus, que se faz presente cada vez que celebramos a Missa, Ele oferece a todos a vida em abundância. Como cristãos, somos chamados a manifestar o amor de Deus que inclui a todos. Por isso, devemos socorrer ao pobre, ao fraco, ao marginalizado; temos que ocupar-nos, especialmente, com os que passam por momentos de dificuldade, que padecem de depressão ou ansiedade; devemos ajudar os deficientes e fazer tudo o que esteja em nosso alcance para promover sua dignidade e qualidade de vida; devemos prestar atenção às necessidades dos imigrantes e daqueles que buscam asilo em nossa terra; temos que estender a mão amiga aos crentes e aos não crentes. Essa é a nobre vocação de amor e serviço que todos nós recebemos. Que isso vos impulsione a dedicar vossa vida a seguir a Cristo. La tibżgħux tkunu ħbieb intimi ta’ Kristu [Não tenhais medo de ser amigos íntimos de Cristo]


Queridos jovens, chegou o momento de despedir-me, desejo manifestar-vos minha proximidade e a lembrança constante em minhas orações por vós, vossos familiares e amigos.


Selluli għaż-żgħażagħ Maltin u Għawdxin kollha [Saudai, de minha parte, a todos os jovens de Malta e Gozo]


sexta-feira, 16 de abril de 2010

Discurso de Bento XVI aos Bispos do Regional Norte 2 da CNBB

Bollettino della Sala Stampa della Santa Sede

Amados Irmãos no Episcopado,

A vossa visita ad Limina tem lugar no clima de louvor e júbilo pascal que envolve a Igreja inteira, adornada com os fulgores da luz de Cristo Ressuscitado. Nele, a humanidade ultrapassou a morte e completou a última etapa do seu crescimento, penetrando nos Céus (cf. Ef 2, 6). Agora, Jesus pode livremente retornar sobre os seus passos e encontrar-Se como, quando e onde quiser com seus irmãos. Em seu nome, apraz-me acolher-vos, devotados pastores da Igreja de Deus peregrina no Regional Norte 2 do Brasil, com a saudação feita pelo Senhor quando se apresentou vivo aos Apóstolos e companheiros: "A paz esteja convosco" (Lc 24, 36).

A vossa presença aqui tem um sabor familiar, parecendo reproduzir o final da história dos discípulos de Emaús (cf. Lc 24, 33-35): viestes narrar o que se passou no caminho feito com Jesus pelas vossas dioceses disseminadas na imensidão da região amazônica, com as suas paróquias e outras realidades que as compõe, bem como os movimentos e novas comunidades e as comunidades eclesiais de base em comunhão com o seu bispo (cf. Documento de Aparecida, 179). Nada poderia alegrar-me mais do que saber-vos em Cristo e com Cristo, como testemunham os relatórios diocesanos que me enviastes e que vos agradeço. Reconhecido estou, de modo particular, a Dom Jesus Maria, pelas palavras que acaba de me dirigir em vosso nome e do povo de Deus a vós confiado, sublinhando a sua fidelidade e adesão a Pedro. No regresso, assegurai-o da minha gratidão por tais sentimentos e da minha Bênção, acrescentando: "Realmente o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão" (Lc 24, 34).

Nesta aparição, palavras - se as houve - diluíram-se na surpresa de ver o Mestre redivivo, cuja presença diz tudo: Estive morto, mas agora vivo e vós vivereis por Mim (cf. Ap 1,18). E, por estar vivo e ressuscitado, Cristo pode tornar-Se "pão vivo" (Jo 6, 51) para a humanidade. Por isso sinto que o centro e a fonte permanente do ministério petrino estão na Eucaristia, coração da vida cristã, fonte e ápice da missão evangelizadora da Igreja. Podeis, assim, compreender a preocupação do Sucessor de Pedro por tudo o que possa ofuscar o ponto mais original da fé católica: hoje, Jesus Cristo continua vivo e realmente presente na hóstia e no cálice consagrados.

Uma menor atenção que, por vezes, é prestada ao culto do Santíssimo Sacramento é indício e causa de escurecimento do sentido cristão do mistério, como sucede quando, na Santa Missa, já não aparece como proeminente e operante Jesus, mas uma comunidade atarefada com muitas coisas em vez de estar recolhida e deixar-se atrair para o Único necessário: o seu Senhor. Ora, a atitude primária e essencial do fiel cristão que participa na celebração litúrgica não é fazer, mas escutar, abrir-se, receber…
É óbvio que, neste caso, receber não significa ficar passivo ou desinteressar-se do que lá acontece, mas cooperar – porque tornados capazes de o fazer pela graça de Deus – segundo "a autêntica natureza da verdadeira Igreja, que é simultaneamente humana e divina, visível e dotada de elementos invisíveis, empenhada na ação e dada à contemplação, presente no mundo e, todavia, peregrina, mas de forma que o que nela é humano se deve ordenar e subordinar ao divino, o visível ao invisível, a ação à contemplação, e o presente à cidade futura que buscamos" (Const. Sacrosanctum Concilium, 2). Se, na liturgia, não emergisse a figura de Cristo, que está no seu princípio e está realmente presente para a tornar válida, já não teríamos a liturgia cristã, toda dependente do Senhor e toda sustentada por sua presença criadora.

Como estão distantes de tudo isto quantos, em nome da inculturação, decaem no sincretismo, introduzindo ritos tomados de outras religiões ou particularismos culturais na celebração da Santa Missa! (cf. Redemptionis Sacramentum, 79) O mistério eucarístico é um "dom demasiado grande – escrevia o meu venerável predecessor, o Papa João Paulo II – para suportar ambiguidades e reduções", particularmente quando, "despojado do seu valor sacrificial, é vivido como se em nada ultrapassasse o sentido e o valor de um encontro fraterno ao redor da mesa" (Enc. Ecclesia de Eucharistia, 10). Subjacente a várias das motivações aduzidas, está uma mentalidade incapaz de aceitar a possibilidade de uma real intervenção divina neste mundo em socorro do homem. Esse, porém, "descobre-se incapaz de repelir por si mesmo as arremetidas do inimigo: cada um sente-se como que preso com cadeias" (Const. Gaudium et spes, 13). A confissão de uma intervenção redentora de Deus para mudar esta situação de alienação e de pecado é vista, por quantos partilham a visão deísta, como integralista, e o mesmo juízo é feito a propósito de um sinal sacramental que torna presente o sacrifício redentor. Mais aceitável, a seus olhos, seria a celebração de um sinal que corresponda a um vago sentimento de comunidade.

Mas o culto não pode nascer da nossa fantasia; seria um grito na escuridão ou uma simples autoafirmação. A verdadeira liturgia supõe que Deus responda e nos mostre como podemos adorá-Lo. "A Igreja pode celebrar e adorar o mistério de Cristo presente na Eucaristia, precisamente porque o próprio Cristo Se deu primeiro a ela no sacrifício da Cruz" (Exort. ap. Sacramentum caritatis, 14). A Igreja vive dessa presença e tem como razão de ser e existir ampliar esta presença ao mundo inteiro.

"Fica conosco, Senhor!" (cf. Lc 24, 29): estão rezando os filhos e filhas do Brasil a caminho do XVI Congresso Eucarístico Nacional, daqui a um mês, em Brasília, que, deste modo, verá o jubileu áureo da sua fundação enriquecido com o "ouro" da eternidade presente no tempo: Jesus Eucaristia. Que Ele seja verdadeiramente o coração do Brasil, donde venha a força para todos homens e mulheres brasileiros se reconhecerem e ajudarem como irmãos, como membros do Cristo total. Quem quiser viver, tem onde viver, tem de que viver. Aproxime-se, creia, entre a fazer parte do Corpo de Cristo e será vivificado! Hoje e aqui, tudo isso desejo à esperançosa parcela deste Corpo que é o Regional Norte 2, ao conceder a cada um de vós, extensiva a quantos convosco colaboram e a todos os fiéis cristãos, a Bênção Apostólica.

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