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sexta-feira, 28 de maio de 2010

O agricultor e os três viandantes

Certa vez, ao anoitecer, um agricultor sentou-se à frente da sua humilde casa para aproveitar do frescor da noite. Ali perto passava uma estrada que levava à cidade. Um homem passou por lá e, vendo o camponês sentado, pensou: “Aquele homem deve ser bem folgado e preguiçoso. Fica aí sentado o tempo todo”. Em seguida passou outro homem, também viu o agricultor e pensou: “Veja o cara, fica só olhando e incomodando as moças que passam. Deve ser um mulherengo”. Por fim passou um terceiro homem, quando viu o agricultor pensou consigo mesmo: “Aquele homem deve ser um trabalhador. Está merecendo o seu descanso”.

A bem da verdade, nós não podemos dizer muito sobre o camponês sentado à porta da sua casa. Em compensação podemos dizer muito dos três homens que passaram. O primeiro devia ser um preguiçoso, o segundo um mulherengo e o terceiro um trabalhador.

Não tem jeito. Nós vemos os outros como nós mesmos somos. As nossas ideias, ideais e posição social, são como lentes coloridas que filtram tudo o que estamos vendo. Tudo passa pelo filtro do nosso entendimento. Quem vive na dúvida acha que não existem convicções, e pensa que os outros estão fingindo. Quem não acredita com sinceridade suspeita que os outros também estejam mentindo. Quem ama de maneira interesseira, e nunca faz nada por nada, tem medo de ser enganado e que os outros se aproveitem dele.

É por isso que é tão difícil contemplar a Santíssima Trindade. Disse contemplar e não entender, porque nunca chegaremos lá. Deus, na sua plenitude, nunca estará totalmente ao nosso alcance. Nós continuaremos sempre a ser as criaturas e Ele o criador.
Contudo, na sua bondade, Ele quis e quer que participemos da sua grandeza e da sua intimidade. Fez-se fez conhecer, revelou-se claramente levando em conta as nossas limitações na compreensão, na inteligência, no amor.

Nós exaltamos as diferenças, as particularidades. Queremos sempre ser melhores que os outros. Assim é difícil entender um Deus que, ao mesmo tempo, é misteriosamente único e em três pessoas. Nós queremos a nossa felicidade e, mesmo quando a procuramos juntos, reclamamos a nossa parte. Para nós buscar o bem do outro antes do nosso é sempre muito complicado. Para Deus não. O Pai, o Filho e o Espírito Santo não disputam nada entre si, doam-se totalmente, ninguém quer nada para si. Assim Deus é a felicidade perfeita.

A obediência, para quem ama, não é um peso, é resposta a quem também o ama. Por isso, o Filho obedece ao Pai e o Pai o glorifica. Mas o Pai escuta o Filho que exulta no Espírito Santo. Para nós autoridade vira facilmente autoritarismo. O poder, quando não é colocado a serviço do bem comum, torna-se opressivo, imposição, ameaça para todos. Em Deus o poder está sempre no servir ao outro, em fazer que o outro seja feliz. Assim Deus é comunhão perfeita que, por amor e em total gratuidade, comunica o seu amor à humanidade.

Para compreender o que é belo e o que não é precisamos ter contemplado algo de verdadeiramente belo. Sem essa experiência, o nosso costume à mediocridade nos fará achar belas obras medíocres, ou até horrorosas. A verdadeira beleza não cansa, a feiúra enjoa. Nunca cansaremos de contemplar a beleza da Santíssima Trindade.

Ainda bem que fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Assim podemos falar dessas coisas e sentir a saudade de como deveríamos ser. É ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo que devemos olhar para aprender a amar, a servir, a criar uma nova humanidade liberta do pecado e da morte, porque liberta do egoísmo, da ganância, do ódio e de todas as rivalidades.

Quem sabe enxergar alguém melhor do que ele é sente desejo, também, de ser melhor. Até quando ficarmos sempre julgando os outros, e até Deus, por nosso ponto de vista, e somente dele, pouco entenderemos de sua grandeza e riqueza. Se olharmos somente a nós mesmos, ficaremos também mais pobres, piores e infelizes.

Dom Pedro José Conti

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Agulha e a linha - Nós adoramos apontar onde os outros deveriam mudar

Agulha e a linha

Nós adoramos apontar onde os outros deveriam mudar
Um conto dos padres do deserto diz que certo monge, vendo a morte chegar, pediu aos seus companheiros que lhe trouxessem a chave do céu: queria morrer agarrado a ela. Um companheiro saiu correndo e lhe trouxe a Bíblia, mas não era isso que o agonizante queria. Outro teve a ideia de trazer a chave do sacrário, também não deu certo. Foi então que alguém que conhecia melhor o doente foi buscar agulha e linha. Agarrado a esses objetos prosaicos, o irmão passou mais tranquilo para a vida eterna. Era o alfaiate da comunidade: sua chave para o céu era a atividade diária, carinhosamente realizada para servir aos seus irmãos.

A historinha nos leva a entender que o trabalho cotidiano do monge foi a sua verdadeira chave para entrar no céu. Com certeza, ele também devia ter rezado muito, meditado bastante, talvez jejuado nos dias certos e cultivado algumas dezenas de outras virtudes. No entanto, ele sabia muito bem que tudo dependia de como ele havia exercido o seu maior serviço na comunidade.

O caminho da santidade pode passar por momentos extraordinários, gestos de heroísmo, façanhas memoráveis; porém, passa, em primeiro lugar, por aquilo que fazemos bem ou mal no dia a dia. Todos nós reconhecemos que, em nossa vida, é muito mais pesado o dever cotidiano do que alguns momentos de esforço, difíceis, sim, mas passageiros.

É por isso que João Batista, o precursor, deu respostas diferentes para os diversos grupos de pessoas que lhe perguntavam: “O que devemos fazer?” Todos deviam partilhar o que estava sobrando de suas roupas e de sua comida. A solidariedade com os necessitados e carentes é o primeiro passo para iniciar uma nova vida. Sem desprendimento não há verdadeira conversão. Depois o profeta do deserto apontou escolhas diferentes para os cobradores de impostos, que extorquiam o povo, e para os soldados que deviam aproveitar demasiadamente da sua força e das suas armas. Significa que cada um deles, naquele tempo, como também nós, hoje, devemos encontrar o nosso próprio caminho de conversão, a partir do lugar onde estamos.

No entanto, nós adoramos apontar onde os outros deveriam mudar e o que deveriam fazer para dar certo. Mais uma vez é muito mais fácil criticar os outros ou declarar como nos comportaríamos se estivéssemos no lugar deles do que começar a corrigir e a melhorar a nossa própria vida.

Os exemplos não faltam. Muitos sabem perfeitamente o que eles fariam se fossem o presidente ou o governador. No entanto, poderiam começar a cuidar melhor das suas famílias e dos seus negócios. Mal conseguem administrar os seus lares; o que fariam se tivessem maior responsabilidade? Não muito diferente acontece na Igreja também. Quem nunca quis dar conselhos ao padre, ao bispo e ao Papa? Com toda razão, talvez, mas nem sempre quem distribui sentenças aplica os mesmos critérios para si mesmo. Com isso não quero dizer que não podemos mais falar ou criticar. Ao contrário, a correção fraterna é evangélica e salutar entre amigos e irmãos. Quando, porém, a crítica é estéril, ou é a descarga de mágoas, invejas e frustrações, ela não serve nem para quem a recebe nem para quem a dispara.

De acordo com nossas responsabilidades, cada um de nós tem muito a melhorar, simplesmente procurando cumprir bem o que se supõe seja o seu dever, ou, ao menos, o seu trabalho cotidiano. Assim os pais poderiam caprichar mais na educação dos seus filhos. Os educadores deveriam ensinar mais humanidade e amor à vida própria e à dos outros. Quem julga, deveria julgar com justiça. Quem administra, fazê-lo com mais honestidade e lisura. Quem comunica, buscar a verdade e não o seu próprio interesse. Quem deve evangelizar também deveria fazê-lo com alegria, entusiasmo e competência, deixando de lado outras preocupações.

Todos precisamos nos agarrar mesmo às “agulhas” e às “linhas” de nossas vidas. Fazer bem o que está ao nosso alcance, no dia a dia, sempre será a melhor chave para entrar no Reino do Céu. Se isso ainda nos interessa.

Dom Pedro José Conti
Bispo de Macapá

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