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quarta-feira, 2 de junho de 2010

O Rosto de Deus

Após a celebração do tempo pascal, iniciamos o Tempo Ordinário do Ano Litúrgico. E começamos por refletir sobre o vulto de Deus que Jesus nos revelou: o mistério de Deus uno e trino, Pai, Filho e Espírito Santo. Mistério que nos diz respeito pessoalmente como nos diz o apóstolo Paulo: “Nele vivemos, nele nos movemos e somos”.

O encontro com Deus dá-se no âmbito de nossa consciência, nosso coração e se traduz tantas vezes em encontros da comunidade, de nossas famílias, lembrados da palavra de Jesus que nos diz: “Onde dois ou mais se reúnem em meu nome, eu estarei no meio deles”.

Deus se revelou a nós na criação: todas as criadas falam de Deus. Manifestou-se na história da salvação que teve como protagonista inicial o povo eleito de Israel, instruído e guiado pelos profetas. Finalmente, fez-se reconhecer no Verbo encarnado , em Cristo Jesus.

E continua apresentar-se a nós nas assembléias da Igreja, em torno ao altar onde o Senhor Jesus nos acolhe como outrora reunia consigo os seus discípulos.

A atenção da criatura humana ao rosto de Deus é compreensível e foi crescendo ao longo dos séculos: com a atração do coração humano para tudo que nos supera e àquele que nos atrai: com Abraão, pai do Povo eleito, “nosso pai na fé”; com os profetas educadores de seu povo; com os salmistas com a intuição da presença de Deus no mundo exprimindo-se na forma poética.

A leitura do livro dos Provérbios 8,22-31 é como um hino à criação. Deus está na origem de tudo. A Sabedoria, realidade misteriosa, junto de Deus desde sempre, antes de toda sua obra; quando Deus projeta os fundamentos da terra, como um arquiteto na construção do mundo, “encontra as suas delícias em estar entre os filhos do homem.”

O mundo não surgiu do acaso, mas de um projeto sapiente. Deus não joga na sorte, dizia Albert Einstein. A contrario, na criação empenha a sua sabedoria. Os primeiros cristãos, relendo esta passagem poética da Bíblia, e outros semelhantes, concluíram que nesta Sabedoria está a evidente referência ao Verbo de Deus que se encarnou, Jesus Cristo.

O evangelho de hoje, João 16,12-15, traz um fragmento do longo discurso proferido por Jesus a seus apóstolos, à tarde da Quinta Feira Santa, no Cenáculo. Momento do adeus. Todos comovidos pois o amavam. Chegou a hora de deixá-lo. Jesus havia lhes falado diversas vezes do Pai, procurando desvelar o seu rosto, mas era um discurso difícil para os apóstolos. “Muitas coisas tenho ainda para dizer-vos, mas neste momento não sois capazes de suportar o seu peso”. Os apóstolos eram plenos de boa vontade, simples, empregavam tanto tempo para compreender.

Com a morte e ressurreição do Senhor, começaram a abrir os olhos e mais ainda compreenderão depois de Pentecostes, com a vinda do Espírito Santo. Na última Ceia lhes anunciou: “Virá o Espírito da verdade e vos guiará à verdade toda inteira”.

Assim o Espírito de Jesus, dado à Igreja, guiou pouco a pouco a humanidade a conhecimentos vertiginosos sobre Deus. Levou-nos a compreender que ele é amor do Pai; que a encarnação do Verbo derrubou a barreira entre o espiritual e o material para unir-nos a ele; que agora ajuda o homem a levantar-se acima do peso do corpo. E isso mediante o Espírito Santo, o qual habita em nós, e nos aconselha, sugere o que é sábio pensar e fazer.

Na carta aos Romanos 5,1-5, Paulo em certo sentido tirou as conclusões para nós: por meio de Jesus nós temos a fé e a paz com Deus, e a esperança em uma vida sem fim. Descobrimos que Deus habita em nós, conosco. Jesus, na quinta feira santa, disse ainda aos apóstolos: “Se alguém me ama, observará a minha palavra”; depois explicou as conseqüências: “e meu Pai o amará, e nós viremos a ele, e faremos morada junto dele” (João 14,23).

O mistério da Trindade foi comparado ao sol. Não conseguimos olhar o sol, porque nos deslumbra. Porém o sol ilumina tudo, e nos permite dever o mundo. Assim, para o cristão, o mistério da Trindade permanece imperscrutável. Mas ao mesmo tempo ilumina toda a nossa vida, e oferece um significado e dá uma orientação ao nosso agir.

Cardeal Geraldo Majella Agnelo

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Renovar a Face da Terra

Cristo Jesus, tendo subido aos céus, enviou o seu Espírito Santo para renovar a face da terra. O cristão é chamado a testemunhar no mundo a força renovadora do amor que vem do sacrifício de Cristo na cruz.

Neste domingo celebramos a festa de Pentecostes. Recordamos a descida do Espírito Santo sobre a Virgem Maria e os Apóstolos, reunidos no cenáculo; a primeira pregação do Evangelho em Jerusalém; a formação da primeira comunidade cristã; o nascimento da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo.

O protagonista escondido de tudo isso é o Espírito Santo. Ele operou outrora e continua operando hoje na sua Igreja. E se lhe damos espaço, intervém com eficácia também em nossa vida. Talvez até agora tenhamos descuidado da presença do Espírito em nós, os seus convites para operar o bem.

Notamos algo de curioso nas três leituras da missa deste domingo. Normalmente, a mais importante é a do evangelho que apresenta Jesus operando no meio dos homens. Nos últimos domingos a importância está na primeira leitura, tomada do livro dos Atos dos Apóstolos, escrito por Lucas. Este livro nos conta a vida dos discípulos depois da ressurreição do Senhor, a história da Igreja em seus inícios. Nesse livro encontramos o relato por extenso de Pentecostes, acontecimento que dá origem à festa de hoje.

Pentecostes significa qüinquagésimo dia. Cinqüenta dias depois da Páscoa, os apóstolos com a Mãe de Deus recolheram-se no Cenáculo, a grande sala na qual o Senhor tinha celebrado a última ceia. Eles continuavam a recolher-se ali, depois da ascensão do Senhor, e sobre eles veio descer o Espírito Santo. Nesse dia tem início a história da Igreja no mundo. E, portanto começa também a história dos cristãos.

Desse acontecimento, o trecho do Evangelho nos apresenta somente uma antecipação: narra como Jesus prometeu aos apóstolos o dom do Espírito Santo, e lhes assegurou que nele haveriam de encontrar conforto, e dele receberiam tudo que deveriam conhecer para a sua missão. Era a tarde da Quinta feira Santa, depois da última ceia, durante o longo e comovente discurso de adeus de Jesus aos apóstolos. Vivendo perto de Jesus tinham percebido nele a presença do divino.

Pedro um dia tinha concluído também em nome dos outros: “Tu és o Filho de Deus, tu tens palavras de vida eterna.” Sentiam-se amados por Jesus, e o amavam também. Para segui-lo tinham abandonado casa, família, profissão, tudo. Mas Jesus lhes tinha advertido que um dia os deixaria. Daí o seu desencorajamento, sua desilusão. Por isso a promessa de Jesus: “Eu pedirei ao Pai, e ele vos dará um outro Consolador, para que permaneça convosco para sempre”.

A palavra usada por Jesus foi Paráclito que significa Consolador e também Advogado, para que nas circunstâncias difíceis lhes sugerisse o que dizer diante dos homens e ainda nos tribunais.

Mas tudo isso se desenrolou na “Quinta Feira Santa”, no recolhimento da Última Ceia, na forma privada.

Ao invés, cinqüenta dias depois da Páscoa, o Espírito Santo se fez presente de forma sensível, manifesta, clamorosa, com sinais vistosos e surpreendentes. São Lucas fala de “um trovão, um vento impetuoso”. Fala de “línguas como de fogo, que pousavam sobre Maria e os apóstolos”.

Os apóstolos compreenderam bem aqueles sinais, acolheram o Espírito Santo, sentiram-se transformados interiormente, venceram todo o medo. Antes estavam escondidos no Cenáculo. Agora saem fora ao descoberto, falam em público e anunciam a todos o Evangelho.

Assim nasceu a Igreja, como realidade histórica que se radica nas cidades, nas nações e nos continentes, que percorre os séculos e os milênios. Uma experiência de homens em diálogo com Deus, que desde dois mil anos atravessa a história.

O protagonista é o Espírito de Jesus; protagonista na história da humanidade e na pequena história de cada um de nós. Do Espírito de Deus “está plena a terra”, desde a criação, a Encarnação do Filho de Deus no seio da Virgem Maria, no perdão dos pecados, e no testemunho cristão. Um sentido de amor para a vida e aos irmãos que nasce do Espírito e nos faz imitadores de Cristo.

Cardeal Geraldo Majella Agnelo

terça-feira, 18 de maio de 2010

Dia das Comunicações

“Os meios modernos de comunicação fazem parte, há muito tempo, dos instrumentos ordinários por meio dos quais as comunidades eclesiais se exprimem, entrando em contato com o seu próprio território e estabelecendo, muito freqüentemente, fórmulas de diálogos mais abrangentes. A sua recente e incisiva difusão e a sua notável influência cada vez mais importante e útil merece atenção do seu uso no ministério sacerdotal” (Mensagem do Papa Bento XVI para o Dia Mundial das Comunicações que ocorre neste domingo, 16 de maio de 2010).

Penso que não perderam seu lugar os folhetos que desde tempos imemoriáveis fazem contato entre os párocos e os fieis de suas paróquias, além do uso dos folhetos litúrgicos que ajudam a participação nas celebrações dominicais. Na era moderna com o advento da eletricidade, os alto falantes aumentam o contato com os paroquianos. Adveio o rádio para superar distâncias e, mais recentemente, a televisão a tornar possível a visão de acontecimentos religiosos desde locais longínquos.

A difusão da Palavra de Deus pode ser feita não somente dos púlpitos dentro das igrejas, mas também através das ondas sonoras e da televisão. Os meios de comunicação modernos tornam possível o encontro das pessoas, ainda que cresça a falta de diálogo e o desencontro entre as mesmas pessoas, desde dentro das famílias até os dissentimentos nas vias públicas, causando intolerância e violência verbal e física.

O Evangelho a ser comunicado é Cristo. Ele é o enviado do Pai celeste para comunicar a paz aos corações que o recebem e a todos os homens de boa vontade. Na carta aos Romanos 10,11, Paulo pergunta: “Como hão de ouvir falar do Senhor se não houver quem lhes pregue? E como hão de pregar, se não forem enviados?”.

Hoje, para dar resposta a essas questões no âmbito das grandes mudanças culturais, particularmente sentidas no mundo juvenil, tornaram-se um instrumento útil as vias de comunicação abertas pelas conquistas tecnológicas. De fato, pondo à nossa disposição meios que permitem uma capacidade de expressão praticamente ilimitada, o mundo digital abre perspectivas e concretizações notáveis ao incitamento Paulino: “Ai de mim se não anunciar o Evangelho!” (1Cor 9,16). Estamos no limiar de uma história nova. Pastoralmente somos chamados a ocupar-nos das novas tecnologias, multiplicando o nosso empenho em colocar as mídias a serviço da Palavra.

Devemos estar presentes no mundo digital em constante fidelidade à mensagem evangélica para desempenharmos o próprio papel de animadores de comunidades, que hoje se exprimem cada vez mais freqüentemente através das muitas “vozes” que surgem do mundo digital, e anunciar o Evangelho recorrendo não só às mídias tradicionais, mas também ao contributo da nova geração de audiovisuais (fotografias, vídeos, animações, blogues, páginas na Internet) que representam ocasiões inéditas de diálogo e meios úteis inclusive para a evangelização e a catequese, lembra Bento XVI.

No mundo digital deve ficar patente que a amorosa atenção de Deus em Cristo por nós não é algo do passado, nem uma teoria erudita, mas uma realidade absolutamente concreta e atual. De fato, a pastoral no mundo digital há de conseguir mostrar, aos homens de nosso tempo e à humanidade desorientada de hoje, que “Deus está próximo e, em Cristo, somos todos parte uns dos outros” (Bento XVI à Cúria Romana em 22/12/2009).

Nossa pastoral não pode continuar a ser dedicada à manutenção dos fieis nas missas dominicais, mas deve procurar novos métodos para levá-los a aprofundar o conhecimento de Jesus Cristo a fim de imitá-lo e testemunhá-lo perante o mundo que quer conhecer a verdade, principalmente os jovens.

Em todos os processos de comunicação há de se promover uma cultura que respeite a dignidade e o valor da pessoa humana. A Igreja é competente em humanidade, porque recebeu de seu fundador o exemplo a ser seguido: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância.” (Jo 10,10)

Com o Evangelho nas mãos e no coração, é preciso reafirmar que é tempo também de continuar a preparar caminhos que conduzam à Palavra de Deus.

Cardeal Geraldo Majella Agnelo

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